Quem vive do rio também faz ciência: pescadores ajudam a monitorar as águas de Rondônia

Na Bacia do Madeira, pescadores registram suas próprias pescarias e ajudam pesquisadores a compreender as mudanças nos peixes, nos rios e na atividade pesqueira.

Para Juscelino Maia, o Seu Maia, um dia de pesca nunca é igual ao outro.

Pescador do distrito de Iata, em Guajará-Mirim, ele aprendeu a profissão com os pais e cresceu acompanhando o pai nas pescarias pelo rio Mamoré. Na infância, enquanto a família saía para pescar e também coletar castanha, Maia observava os lugares escolhidos pelo pai, os equipamentos e as formas de encontrar o peixe necessário para a alimentação.

O pai pescava principalmente com espinhel. Conhecia os lugares e sabia quando e como pescar. Maia aprendeu acompanhando.

Hoje, décadas depois, continua fazendo da pesca uma parte central da vida.

Seu Maia vai ao rio todos os dias em procura de peixe. Foto: Joshua Lacerda/Ecoporé

Costuma chegar ao rio pela manhã, entre 7h e 8h. Mexe nos equipamentos, troca de lugar, prepara as iscas e acompanha o movimento da água. Nem sempre encontra peixe. Há dias em que não captura nada. Às vezes, segundo ele, passam-se semanas ou até meses até que a pescaria volte a render.

Ainda assim, ele retorna.

“Para mim, todo dia é sagrado. Eu vim no rio. O dia que eu não vim, eu adoeço.” seu Maia reflete ao ser perguntado da sua relação com a pesca.

A frase ajuda a entender uma relação com o rio que vai além da atividade econômica. Para quem vive da pesca artesanal, o rio é um meio de vida, um recurso vivo.

Maia resume essa experiência de uma forma simples:

“Todo dia, a história nunca se repete. Todo dia, uma nova história“.

É justamente essa capacidade de observar o rio continuamente que coloca pescadores como ele no centro de uma experiência de produção de conhecimento sobre a pesca na Amazônia.

Em Rondônia, pescadores participam de um monitoramento pesqueiro desenvolvido no âmbito do Programa Ciência Cidadã para a Amazônia, da Aliança Águas Amazônicas, executado pela Ecoporé em parceria com o Laboratório de Ictiologia e Pesca da Universidade Federal de Rondônia (LIP/UNIR), com apoio da WCS Brasil e da Fundação Gordon e Betty Moore.

A proposta parte de uma ideia que muda a posição tradicional do pescador ou pescasdora dentro da pesquisa: de que eles e elas são sejam apenas alguém que forneça informação aos pesquisadores, mas que participem da produção do conhecimento.

Construção coletiva com pescadores da bacia amazônica durante o Diálogo de Saberes 2026, encontro que originou um manifesto regional em defesa dos bagres migratórios. (Foto: Águas Amazônicas)

A participação também se estende a reuniões, seminários, encontros técnicos e intercâmbios com pescadores de diferentes regiões e países. Entre essas experiências está o Diálogo de Saberes, promovido pela Aliança Águas Amazônicas, que aproxima diferentes conhecimentos sobre a pesca e os ambientes aquáticos e contribui para a construção de estratégias de conservação e propostas para as políticas públicas. 

O conhecimento de quem está no rio

Uma pescaria pode terminar com um peixe no barco. Para o monitoramento, ela também pode terminar com uma série de informações.

Os pescadores participantes registram suas pescarias e compartilham dados que ajudam a caracterizar a atividade: espécies capturadas, tamanho e peso dos peixes, local e período da pescaria, entre outras informações.

Quando esses registros se acumulam, deixam de representar apenas uma captura individual. Eles passam a formar um conjunto de informações que pesquisadores podem organizar, comparar e analisar para compreender melhor a pesca e os ambientes onde ela acontece.

A equipe técnica troca conversas com os pescadores parceiros do programa diariamente sobre suas pescaria, (Foto: Joshua Lacerda/Ecoporé)

Túlio Araújo, analista ambiental da Ecoporé que atua diretamente no projeto junto aos pescadores, acompanha esse processo.

“O pescador está no rio de forma contínua e conhece a dinâmica da pesca a partir da própria experiência. Ele consegue perceber mudanças que uma coleta pontual dificilmente mostraria. Quando esses registros são feitos ao longo do tempo e em diferentes comunidades, conseguimos acompanhar essas mudanças e construir uma visão mais ampla da pesca na região” explica o analista.

A participação dos pescadores é importante justamente porque eles acompanham o território em uma escala de tempo que uma pesquisa pontual dificilmente alcançaria.

Maia, por exemplo, não observa o rio apenas durante uma saída de campo, ele está ali diariamente. Conhece os lugares onde costuma encontrar determinadas espécies, percebe mudanças no tamanho dos peixes e compara o que encontra hoje com aquilo que aprendeu a encontrar ao longo da vida.

Esse conhecimento não substitui a pesquisa científica. Ele acrescenta outra camada à compreensão do território. É nesse encontro que a ciência cidadã ganha sentido.

Da memória familiar ao registro da pescaria

O conhecimento sobre a pesca também não começa no aplicativo ou no projeto.

Para muitos pescadores, ele começa dentro de casa. Foi assim com Maia, que aprendeu observando o pai e atualmente tem seu filho, que também é pescador da pesca artesanal no Rio Madeira.

O conhecimento sobre a pesca também passa de uma geração para outra. Revelly Pinheiro, de 23 anos, moradora de São Carlos, no Baixo Madeira, cresceu acompanhando o avô Diquinho, que pescava e tirava da atividade pesqueira o sustento da família. A relação com o rio veio antes do projeto e, dentro do Programa Ciência Cidadã para a Amazônia, ganhou outra dimensão.

Eu sempre acompanhava meu avô pescando. O vô Diquinho sempre pescou, sabe? Ele me ensinou tudo o que eu sei olhando ele trabalhar. Hoje eu também sou pescadora com muito orgulho, e poder juntar isso com a pesquisa é uma forma de valorizar a história da nossa família” afirma a jovem cientista.

Revelly Pinheiro, moradora de São Carlos, distrito de Porto Velho pesca para consumo. (Foto: Arquivo Pessoal)

Revelly participou das atividades desenvolvidas pelo programa em escolas ribeirinhas, voltadas a jovens que vivem em comunidades pesqueiras, são filhos de pescadores ou convivem diretamente com a atividade. A experiência aproximou os estudantes da observação da pesca e do registro das informações produzidas no próprio território. Foi nesse processo que ela passou a atuar como jovem cientista da pesca artesanal.

Depois, a pescadora continuou contribuindo com o monitoramento e passou a enviar registros das próprias pescarias. Durante uma pescaria na Boca do Jamari, por exemplo, houve o registro fotográfico dos peixes e o compartilhamento das informações da captura, formando um conjunto de dados

O que antes poderia ficar apenas na memória de quem estava no barco passa, assim, a integrar um conjunto maior de informações sobre a pesca.

E Revelly não é a única pescadora a fazer esse registro.

Pescadores de diferentes comunidades enviam aos técnicos do projeto fotografias e informações das pescarias por WhatsApp. Esses registros alimentam o monitoramento e permitem reunir, ao longo do tempo, informações produzidas diretamente por quem está no rio.

É o caso de João Evangelista, pescador da antiga Vila Nova Teotônio. Nascido praticamente na beira do rio, ele acompanha as transformações do território e também participa do monitoramento, enviando os registros de suas pescarias à equipe.

A história de João dá ao monitoramento outra dimensão. Para ele, registrar a pesca também significa deixar documentado aquilo que os pescadores percebem no cotidiano, inclusive as mudanças provocadas pela transformação do território após a formação do reservatório da Usina Hidrelétrica de Santo Antônio.

“A gente que vive no rio percebe muita coisa pela pesca. Quando a gente registra o que pega, onde pega e o tamanho dos peixes, consegue acompanhar como está a saúde do rio. Esses dados mostram o que está acontecendo aqui” relata.

A observação de João ajuda a explicar por que os registros feitos pelos pescadores têm valor para além de uma única pescaria. Reunidos ao longo do tempo, eles permitem comparar locais, períodos, espécies e características das capturas, criando um conjunto de informações que ajuda pesquisadores a acompanhar mudanças na pesca e nos ambientes aquáticos.

Quando o pescador registra, o território ganha dados

Para facilitar esse processo, o monitoramento utiliza o Ictio, aplicativo criado para registrar informações sobre peixes e pescarias na Bacia Amazônica.

A ferramenta permite reunir dados produzidos por diferentes participantes e organizar essas informações para análise.

O trabalho ganhou também uma nova possibilidade com o Ictio Áudio. A ferramenta permite que o pescador relate a pescaria por voz, em vez de depender exclusivamente da digitação.

Ele pode informar, por exemplo, o peso e o tamanho dos peixes, o local da pescaria, quantos dias passou pescando e outras características observadas durante a atividade.

A tecnologia foi pensada para se aproximar da rotina de quem está no território. O pescador pode fazer o relato por áudio, e a ferramenta utiliza inteligência artificial para transformar a fala em informação organizada.

O recurso também considera uma realidade comum na Amazônia: a conectividade limitada. Os registros podem ser feitos e armazenados mesmo quando não há conexão, sendo enviados posteriormente.

O princípio continua sendo o mesmo: facilitar o registro daquilo que o pescador já observa.

O peixe pequeno também conta uma história

Seu Maia também observa os peixes que devolve ao rio. Em algumas pescarias, quando encontra exemplares pequenos ou espécies que não pretende levar, faz o registro e, quando necessário, encaminha o exemplar para análise. Foi o que aconteceu com um peixe de cerca de 300 gramas que chamou sua atenção. Para Maia, acompanhar esses peixes ajuda a entender o que está acontecendo nos trechos onde pesca e como as espécies estão se desenvolvendo.

“Eu acredito que esses que estão criando aqui hoje, eles estão crescendo.”

Uma observação como essa ganha outra dimensão quando se junta aos registros de outras pescarias. Ao reunir informações produzidas por diferentes pescadores, em diferentes locais e períodos, o monitoramento permite transformar experiências individuais em um conjunto de dados sobre a pesca e os ambientes aquáticos.

Túlio explica que esse acompanhamento permite compreender a dinâmica da atividade, identificar impactos decorrentes das pressões sobre os ambientes e contribuir para a sustentabilidade da pesca.

“Além disso, os dados gerados podem subsidiar tomadas de decisão mais assertivas e alinhadas à realidade local.”

O monitoramento acompanha informações como produção pesqueira, número de pescadores ativos, locais de desembarque e principais espécies capturadas. Ao longo do tempo, esse conjunto permite observar mudanças na atividade e acompanhar a situação dos estoques pesqueiros — informações que podem contribuir tanto para a conservação das espécies quanto para a manutenção da pesca como fonte de alimento e renda.

É nesse ponto que a experiência se aproxima dos princípios de ciência aberta e ciência participativa defendidos pelo Programa Ciência Cidadã para a Amazônia: o conhecimento não é produzido apenas por pesquisadores, mas também por pessoas que vivem e trabalham nos territórios onde os fenômenos observados acontecem.

Na Bacia do Rio Madeira, pescadores, jovens, comunidades e pesquisadores participam desse processo. O Resumo Executivo “Monitoramento Independente e Governança de Territórios Pesqueiros na Amazônia sistematiza parte dessa experiência e reúne resultados relacionados ao monitoramento independente, incluindo o uso do Ictio, a participação de jovens de escolas ribeirinhas, o diálogo entre conhecimentos tradicionais e científicos e a produção de informações sobre grandes obras e espécies migradoras.

O resultado é uma outra forma de olhar para a pesca: cada registro ajuda a construir uma leitura coletiva sobre o que está acontecendo nos rios.

E, quando esse conhecimento é organizado, analisado e compartilhado, pode deixar de responder apenas à pergunta “o que foi pescado?” para ajudar a responder questões maiores: o que está mudando na pesca, quais pressões estão afetando os ambientes e que caminhos podem fortalecer sua conservação e a permanência das comunidades pesqueiras em seus territórios.

Uma ciência para continuar pescando

Para quem participa do monitoramento, registrar a pesca também é uma forma de pensar no que vem depois. Seu Maia resume essa preocupação na maneira como escolhe o que leva do rio e o que devolve para a água:

“Se você vai no rio, você pesca, pega só o necessário. Pega os grandes que é comercial. Os que não são comerciais, você solta. Você vai estar criando para o futuro, para as futuras gerações ter” conta emocionado.

Revelly também vê no registro uma forma de transformar aquilo que aprende durante a pesca em conhecimento que pode contribuir para a conservação.

“A gente está pescando, mas também está aprendendo. Quando registra o que pega, ajuda a mostrar o que está acontecendo no rio e a cuidar dele.”

Para João, esse acompanhamento tem relação direta com a própria continuidade da atividade.

“Nós somos pescadores e dependemos do rio. Se a gente registra o que está acontecendo na pesca, está ajudando a mostrar como o rio está e o que precisa ser cuidado para a pesca continuar

As falas apontam para uma mesma compreensão: conservar os rios também significa garantir as condições para que a pesca continue existindo. Nesse processo, os pescadores deixam de ser apenas fontes de informação e passam a participar da construção de um conhecimento que reúne experiência, observação cotidiana e pesquisa.

Seu Maia não vê o monitoramento como algo encerrado nos dados. Para ele, continuar aprendendo faz parte da própria relação com a pesca.

“A gente vem só aprendendo, só aprendendo.”

E talvez seja essa a síntese do monitoramento: um conhecimento que não fica parado. A cada pescaria, novos registros se somam aos anteriores; a cada registro, novas perguntas podem surgir; e, com o tempo, essas informações ajudam a compreender as mudanças nos rios e pensar caminhos para conservar as águas e sustentar a pesca.

No rio, cada nova história também pode ser um novo dado, como refletiu o seu Maia sobre a relação com a pesca. E, juntos, esses registros ajudam a construir conhecimento para que o rio continue tendo histórias para contar.

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