Quem cuida da floresta decide: Indígenas levam protagonismo de seus territórios ao II EIRE

Indígenas de Rondônia participaram do II Encontro Indígena de Restauração Ecológica e da SOBRE2026, em Brasília, defendendo que “nós somos a regeneração”.

Nos dias 25 e 26 de julho, Brasília (DF) se tornou o centro do debate sobre o futuro dos biomas brasileiros através do II Encontro Indígena de Restauração Ecológica (EIRE) e a mensagem central do evento foi: quem cuida da floresta, há milênios, é quem deve decidir como ela será restaurada.

Foto: Marewi Juruna, jovem comunicador da Rede de Sementes do Xingu

Para garantir que a voz da Amazônia rondoniense ecoasse nesse importante espaço nacional, uma delegação de lideranças indígenas viajou à capital federal com o apoio da Ecoporé e da Aliança pela Restauração na Amazônia.

O grupo foi formado por Rosiane Kaxarari, Inácio Karitiana, Breno Karitiana e Benjamim Oro Nao, que levaram na bagagem não apenas suas experiências pessoais, mas os conhecimentos, as práticas e os desafios vividos diretamente em seus territórios.

“Nós Somos a Regeneração”: muito além de plantar árvores

Durante o encontro, ficou evidente que a visão ocidental sobre a recuperação de áreas degradadas é insuficiente. Para os povos indígenas, a restauração é indissociável da cultura, da espiritualidade e das relações que sustentam a vida. A partir dessa compreensão, os representantes indígenas de diferentes biomas construíram a Carta dos Povos Indígenas do II EIRE, documento batizado com a declaração: “Nós somos a regeneração”.

A carta propõe uma mudança profunda de perspectiva: abandonar o termo mercadológico “cadeia da restauração”, que remete ao aprisionamento, e adotar o conceito de “ninhos da vida”.

Os ninhos são espaços de proteção e acolhimento, onde a vida é fortalecida e preparada para seguir seu próprio caminho.

O documento também traz uma exigência fundamental contra o modelo atual de muitos financiamentos climáticos: os povos indígenas não querem apenas receber projetos prontos. A defesa é por participação direta e protagonismo desde a fase de elaboração das iniciativas até a gestão dos recursos e o acompanhamento das ações no território. Afinal, restaurar um território é fortalecer conhecimentos tradicionais, sistemas de produção de sementes, autonomia dos povos e a garantia da continuidade da vida para as próximas gerações.

Da Amazônia para o debate nacional: A força do intercâmbio

Após as discussões e a construção de caminhos no EIRE, a delegação rondoniense levou essa mesma agenda e força política para a SOBRE2026 (Conferência da Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica), ampliando a voz dos povos indígenas no principal espaço de debate técnico e científico sobre restauração no Brasil.

Para a Ecoporé e a Aliança pela Restauração na Amazônia, apoiar essa participação é acreditar que o que se debate fora fortalece quem está dentro. O supervisor etnoambiental da Ecoporé, Israel Vale, destaca a relevância de garantir a presença rondoniense nesse processo autônomo.

“Tivemos um papel muito importante de apoiar várias lideranças indígenas lá de Rondônia. O EIRE é um encontro muito importante porque reúne povos do Brasil inteiro e é onde é possível que eles consigam, em dois dias de discussão, conversar de parente para parente, sem a interferência de organizações não indígenas, para discutir a restauração com a cara deles, com as demandas que eles trazem de dentro dos territórios”, explica.

Essa garantia de autonomia e o intercâmbio de vivências refletiram diretamente nas lideranças. Ao avaliar os impactos da viagem e os próximos passos na sua base, Rosiane Kaxarari destacou o compromisso com a continuidade do trabalho:

“Volto para o nosso território com novos aprendizados para o meu povo. Esse encontro mostrou o quanto é importante fortalecermos a nossa coleta de sementes e as nossas práticas”, avaliou.

O conhecimento compartilhado também foi o grande marco para Breno Karitiana, que reafirmou a importância de somar forças.

“A troca de experiências com parentes de outros biomas e a reafirmação da nossa conexão profunda com a floresta nos dá mais força”, ressaltou a liderança.


A delegação contou também com Inácio Karitiana, cuja participação foi fundamental para consolidar a presença rondoniense na articulação nacional.

Já o sentimento de união frente aos desafios climáticos foi resumido de forma direta por Benjamim Oro Nao:

“Indígena com indígena, a gente se entende”, diz.

É exatamente esse entendimento ancestral que a Ecoporé e seus parceiros buscam apoiar e fortalecer: territórios e povos que compartilham seus saberes para continuar regenerando a vida no planeta.

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