Lançada pela Ecoporé e UNIR em Rondônia, a ferramenta dispensa digitação, funciona offline e transforma relatos de pescadores em dados científicos

A Ecoporé esteve presente na 4ª Conferência Nacional de Aquicultura e Pesca (CNAP) participando na elaboração de políticas públicas para a pesca artesanal na bacia amazônica. Após o evento, a equipe da Ação Ecológica Guaporé – Ecoporé anunciou o Lançamento do Ictio áudio, uma ferramenta de monitoramento da atividade pesqueira, realizada por pescadores: esportistas, amadores e da pesca artesanal.
A etapa estadual da conferência foi marcada pela mobilização da sociedade civil, sendo realizada quarta-feira, dia 10, no auditório do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM). O evento reuniu mais de 100 participantes, entre eles representantes da pesca, da aquicultura, do setor industrial, entidades civis, gestores públicos e instituições parceiras.
Durante a conferência, os debates foram organizados em três eixos: pesca artesanal, aquicultura e indústria. Como resultado das discussões, foram elaboradas 30 propostas voltadas ao fortalecimento da cadeia produtiva, além da escolha dos delegados que representarão Rondônia na etapa nacional.
Lançamento da Plataforma Ictio áudio
A novidade faz parte da plataforma Ictio, um banco de dados global e já reconhecido, criado originalmente pelo Laboratório de Ornitologia de Cornell em parceria com a Wildlife Conservation Society (WCS) dentro da Aliança Águas Amazônicas, para registrar observações de peixes e entender suas migrações no maior sistema de água doce do mundo.

O Ictio Áudio nasce como uma evolução revolucionária dentro do programa Ciência Cidadã para a Amazônia da Aliança Águas Amazônicas. Em Rondônia, essa iniciativa é executada pela Ecoporé em parceria com o Laboratório de Ictiologia e Pesca (LIP) da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), com o apoio da WCS e da Fundação Moore.
Todas as informações de pesca são distribuídas em um banco de dados, onde é possível monitorar a atividade pesqueira e, assim, conseguir trabalhar políticas públicas, fazer avaliação da qualidade ambiental e do ecossistema aquático da Bacia Amazônica.

Como o Ictio Áudio funciona na prática
Com foco total na acessibilidade e na simplicidade, a ferramenta elimina a necessidade de digitação. Para registrar uma nova pescaria, basta o pescador(a) abrir o aplicativo e enviar um áudio ou gravar um vídeo.
O grande diferencial é que o aplicativo funciona de forma totalmente offline. Dessa forma o pescador pode registrar toda a sua pescaria normalmente e assim que o celular detectar uma rede de internet ou Wi-Fi novamente, os áudios e vídeos gravados são enviados automaticamente para a plataforma.

No áudio enviado, o pescador(a) relata os detalhes essenciais da sua atividade diária:
- Quais espécies pegou;
- Onde foi realizada a pesca e a quantidade de dias de trabalho;
- O tamanho (comprimento) e o peso aproximado do pescado;
- Além de poder completar informando dados biológicos fundamentais, como as gônadas (o estágio de maturação) e o grau de enchimento do estômago.
Segundo Ana Paula Albuquerque, gerente de Educação da Ecoporé, aplicativo usa como recurso de transcrição dos dados por inteligência artificial “ Através da voz do pescador ou pescadora, o registro da pesca é feito, o cientista cidadão menciona a espécie, a quantidade de quilos, se o animal está em estágio de reprodução, se ele está alimentado ou não”.
Ela detalha ainda como a tecnologia automatiza e organiza essas informações: “Todas essas informações são capturadas e a inteligência artificial faz uma transcrição de todas as informações passadas pelo pescador. A partir disso, a gente consegue gerar um banco de dados, possibilitando o mapeamento de tudo”.
A voz do pescador e o fim do “tiro no escuro”
Para quem vive dos rios, a ferramenta traz uma agilidade inédita. O pescador João Evangelista, da Vila Nova Teotônio, destaca que o registro da pesca por áudio vai facilitar demais a rotina, justamente por ser muito mais prático para quem está com a mão na massa no dia a dia.
Além da praticidade, o monitoramento contínuo fortalece as comunidades ao ajudar na compreensão profunda dos ciclos da natureza.

Juscelino Maia, pescador do distrito do Iata, em Guajará-Mirim, e parceiro do programa Ciência Cidadã, relata como o uso de dados vem transformando seu conhecimento empírico sobre as águas: “A gente vem colhendo os dados e para nós mesmo fica bom, porque a gente vai saber como é que está o dia-a-dia. Já descobri muita coisa, que na lua cheia, é os peixes de escama, é onde eles andam mais e comem mais. O peixe, o bagre, eu acredito que eles andam mais na lua nova, eles comem mais, porque a gente pega mais ele na força da lua nova”.
Ele complementa explicando como isso evita o desperdício de tempo e esforço: “Aí eu estou aprendendo com o andar da natureza, que está sendo dessa forma aí. (…) A gente vai no rio e já vai procurar pescar na época certa, como é que o peixe está comendo, como é que ele está andando, porque senão você vai estar dando tiro, vai pescar um peixe numa época que está dando o outro e vai dar tudo errado. Você não consegue pegar peixe e como a gente pesca diretamente, estamos descobrindo isso aí”.
Pesquisa, Políticas Públicas e a Desburocratização
Por meio desses dados coletados diretamente pelos pescadores, o Ictio Áudio não só fortalece a ciência cidadã e a pesquisa na Amazônia, mas também pode subsidiar políticas públicas essenciais para o setor pesqueiro.
Miguel Zamberlan, desenvolvedor do aplicativo, explica o protagonismo de quem utiliza a tecnologia: “O objetivo desde o início é, a partir do que foi dialogado e conversado com a comunidade, construir uma solução que fosse simples de utilizar, mas ao mesmo tempo robusta… Então pensem que o Ictio Áudio tem como objetivo possibilitar ao pescador gerar o seu registro, criar a sua história e além disso contribuir com as políticas públicas, porque a partir do momento que ele faz o registro com simples áudio, com simples foto, com um simples vídeo, ele participa de forma direta da construção de políticas públicas”.
Carolina Doria, Secretária Nacional de Registro, Monitoramento e Pesquisa do Ministério da Pesca e Aquicultura, ressalta as vantagens do aplicativo:

“O Ictio Áudio é uma ferramenta muito importante para o Ministério da Pesca e Aquicultura, porque ele vai facilitar o monitoramento da atividade pesqueira para os nossos pescadores. Eles vão ter mais facilidade para fazer os seus registros, e nós teremos informações reais da pesca nas localidades, nos territórios. A gente vai conseguir ter informação do que está sendo pescado, e, com isso, subsidiar melhores políticas públicas para o setor pesqueiro.”
Ela complementa destacando um benefício prático: se o pescador autorizar no aplicativo, ele poderá utilizar o relatório gerado a partir de seus registros como documento comprobatório de sua atividade pesqueira, podendo anexá-lo junto ao REAP para diminuir drasticamente a burocracia do processo.
Atualmente, o aplicativo está disponível apenas na bacia amazônica brasileira, funcionando dentro das ações integradas da Aliança Águas Amazônicas.
Para sistema via android, abaixe aqui.

