A história da Ecoporé confunde-se com a própria história da defesa socioambiental na Amazônia. No dia 25 de junho de 1988, em Rolim de Moura, nascia a instituição como uma resposta direta à devastação predatória que a região enfrentava na época.
A origem da organização se deu no auge da expansão da fronteira agrícola na década de 1980, período em que o município ostentava dezenas de serralherias que queimavam madeira dia e noite, cobrindo a região com uma densa camada de fumaça.
O engenheiro agrônomo João Alberto Ribeiro relembra o cenário daquele período: “Na época que nós chegamos em Rolim de Moura, em 1986, tinha uma quantidade enorme de madeireiras. Eu lembro que havia 180 serrarias e na entrada da cidade havia escrito ‘Capital da Madeira’. Quando eu saía para trabalhar na EMATER, quando via de longe, há uns 10 quilômetros, se via aquela calota de poeira sobre a cidade”
Em um cenário onde as madeireiras atuavam com total liberdade , a economista Ieda Cella complementa a gravidade da poluição local: “Nessa época em Rolim de Moura, além do poeirão, era aquela fumaça das madeireiras dia e noite queimando madeira. Era impressionante ver o volume de madeira que se queimava”.
Diante dessa destruição generalizada e da falta de fiscalização, João Alberto, Ieda Cella e um pequeno grupo de socioambientalistas perceberam que precisavam de uma personalidade jurídica para legitimar suas denúncias junto às autoridades. Assim, reuniram-se em assembleia na Casa da Cultura de Rolim de Moura para aclamar oficialmente a Ação Ecológica Vale do Guaporé, que mais tarde adotaria a sigla Ecoporé.
A Linha de Frente na Defesa dos Territórios
Logo nos primeiros anos de fundação, a Ecoporé assumiu a vanguarda da fiscalização ambiental no estado. Um dos marcos dessa trajetória ocorreu no interior da Reserva Biológica (REBIO) do Guaporé no que ficou conhecido como “Combate ao Roubo de Madeira” (1989). A recém-inaugurada ONG atuou de forma audaciosa, levando um cinegrafista para registrar e denunciar madeireiros que extraíam ilegalmente caminhões de mogno e cerejeira da unidade de conservação.
Paralelamente ao combate contra a grilagem, a aliança com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) resultou no apoio técnico à demarcação da Terra Indígena Massaco. Esse marco salvaguardou milhares de hectares de floresta intocada e cravou na história do país o primeiro território demarcado exclusivamente para garantir o direito ao isolamento absoluto de povos indígenas.
A Quebra das Correntes: O Fim do Aviamento
Durante décadas, a exploração nos seringais de Rondônia operou sob o amparo do “sistema de aviamento”, uma engrenagem perversa que mantinha as famílias em regime de semiescravidão por dívidas. A ruptura histórica desse ciclo ocorreu em junho de 1989, no “Encontro de Índios e Seringueiros de Costa Marques”.
Apoiados tecnicamente pela Ecoporé, os trabalhadores locais rebelaram-se em assembleia e decretaram a suspensão imediata do pagamento das rendas aos seringalistas. Esse ato de insubordinação foi o estopim para a transformação dos antigos seringais na Reserva Extrativista (RESEX) do Rio Cautário.
O peso dessa ruptura transcende os limites territoriais e alcança a própria dignidade humana. Nas palavras de Zé Maria, líder extrativista que sentiu na pele a opressão de ter sua vida atrelada aos cadernos de dívidas dos seringalistas, o fim do aviamento significou, acima de tudo, o resgate da autonomia:
“Mudou a liberdade. A gente não tinha liberdade […] Eu fiquei pagando aluguel da colocação, a chamada renda. Pagava o equivalente a 150 kg de borracha para ter o direito de ocupar três estradas de seringa […]. O seringueiro só vinha para a cidade se tivesse saldo. Podia estar doente, ficava lá. A liberdade não tem preço. Foi a grande conquista do movimento extrativista.”
O Tripé da Resistência: OSR, AGUAPÉ e Ecoporé
Para enfrentar o poderio econômico local e a conivência do Estado, a resistência precisava de organização. Atuando lado a lado com o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), a Ecoporé tornou-se o pilar técnico da mobilização. Com esse suporte, formou-se um tripé institucional que mudaria o mapa de Rondônia:
- A Organização dos Seringueiros de Rondônia (OSR): Fundada em dezembro de 1990 para liderar as frentes políticas estaduais.
- A Associação dos Seringueiros do Vale do Guaporé (AGUAPÉ): Criada em março de 1992 para mobilizar as famílias na base.
- Ecoporé: Fornecia a assessoria técnica indispensável, elaborando mapeamentos, pesquisas científicas e os Planos de Utilização que fundamentaram legalmente a viabilidade ecológica das RESEX perante o Estado.
Para além de apoio burocrático, a força dessa aliança residia na convivência lado a lado, com o pé no barro. O líder extrativista Zé Maria resume o nível de confiança mútua forjado nas trincheiras dessa luta:
“A gente começou a trabalhar, ir para campo junto e decidir as coisas, planejar junto… e foi assim que a gente adquiriu confiança e parceria. Eram parceiros mesmos de verdade que se ia pro campo, se enfrentava madeireiro, tudo. A política da Ecoporé era uma política para beneficiar o extrativista, para beneficiar o morador ribeirinho, não para beneficiar a si prórpio.”
A pesquisadora e professora universitária Carolina Doria — uma das sócias da instituição e um dos nomes fundamentais que ajudaram a construir a Ecoporé desde o início — vivenciou de perto essa fase de transição nos anos 2000. Ela relata como essa tríplice aliança pavimentou o caminho para a geração de renda aliada à floresta em pé:
“A Ecoporé trabalhava no desenvolvimento de alternativas econômicas sustentáveis para a consolidação das reservas extrativistas da região do Vale do Guaporé. Esses projetos eram desenvolvidos com apoio da Organização dos Seringueiros de Rondônia e da Águapé […]. Para mim representa uma prova de que a conservação é possível quando as comunidades fazem parte do centro das soluções.”
O Futuro Sustentado pelo Legado
Celebrar 38 anos é honrar as gerações que acreditaram em um futuro mais justo e que sustentaram a instituição até aqui. A Ecoporé segue firme, unindo a sabedoria do passado à inovação para os desafios do presente.
O impacto desse legado vivo é refletido nas pessoas que hoje conduzem a organização. Para a bióloga Lorena Demétrio, que acompanha o trabalho há mais de uma década e hoje integra o quadro administrativo e associativo, a existência de uma ONG consolidada em Rondônia é motivo de muito orgulho. “Saber que temos um grupo forte lutando pela pauta socioambiental, mesmo diante de um cenário local que impõe muitos desafios e pressões, é o que me anima profundamente. Essa consolidação da instituição é o nosso farol de esperança”, ressalta.
Essa visão de continuidade é o que norteia os próximos passos da Ecoporé. Como destaca o diretor-presidente Marcelo Ferronato ao projetar a Visão 2030, a essência desse futuro está na compreensão de que sustentabilidade é, acima de tudo, proteção e afeto:
“O cuidar vem de zelar, ele vem do carinho que a gente tem com as pessoas e com tudo que é feito […]. A gente não entrega só resultados nos nossos projetos, a gente entrega relacionamento, entrega amizades.”
É esse valor fundamental que guia a organização em direção às próximas décadas. O objetivo maior não é apenas preservar o passado, mas garantir a vitalidade do legado. Como conclui Marcelo, a meta diária é trabalhar para que os novos colaboradores “recebam de presente uma instituição que elas possam chamar de sua, de nossa, e colocar os seus sonhos também pra frente”.

