Equipe técnica da Ecoporé construiu, de forma coletiva, os modelos agroflorestais que serão implementados em assentamentos rurais de Porto Velho e Candeias do Jamari pelo projeto Amazônia Mais Robusta.

A restauração de uma área degradada começa muito antes do plantio das primeiras mudas. Ela passa pelo planejamento, pela escolha das espécies, pelo entendimento das características de cada território e pela preparação das pessoas que estarão à frente desse processo. Foi com esse objetivo que a Ecoporé promoveu, entre os dias 10 e 13 de junho, uma formação em Sistemas Agroflorestais (SAFs) voltada à equipe técnica que atuará no projeto Amazônia Mais Robusta: Territórios Agroflorestais.
Durante quatro dias, profissionais de diferentes áreas participaram de uma imersão sobre os fundamentos dos Sistemas Agroflorestais, sua aplicação na restauração ecológica e na produção sustentável. A programação reuniu atividades teóricas e práticas, permitindo que a equipe construísse, de forma coletiva, os arranjos agroflorestais que servirão de referência para a implantação das ações em campo.

A formação integra as ações da Escola da Restauração, iniciativa da Ecoporé voltada à difusão de conhecimentos sobre restauração ecológica para agricultores familiares, povos e comunidades tradicionais, equipes técnicas e instituições parceiras. A proposta é fortalecer capacidades locais e preparar profissionais para atuar em iniciativas que conciliam conservação ambiental e desenvolvimento sustentável.
Segundo o supervisor técnico da Ecoporé, Peterson Campos, preparar a equipe antes do início das atividades em campo é fundamental para que todos compartilhem a mesma base técnica e metodológica.
“A Escola da Restauração tem o propósito de incluir as pessoas em prol da conservação do meio ambiente e da biodiversidade por meio da difusão do conhecimento para agricultores familiares, povos e comunidades tradicionais, técnicos da Ecoporé e instituições parceiras.
Disso surgiu a necessidade de realizar um treinamento em Sistemas Agroflorestais com a equipe técnica que atuará no projeto Amazônia Mais Robusta”, destaca o supervisor técnico.
Do planejamento à ação: O caminho para transformar áreas degradadas

Essa preparação será colocada em prática por meio do projeto Amazônia Mais Robusta: Territórios Agroflorestais, executado pela Ecoporé em assentamentos da reforma agrária nos municípios de Porto Velho e Candeias do Jamari. A iniciativa promoverá a restauração ecológica produtiva por meio da implantação e do manejo de Sistemas Agroflorestais, conciliando recuperação ambiental, fortalecimento da agricultura familiar e geração de renda. O projeto é financiado com recursos do Fundo Amazônia e realizado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM).
Para o diretor-presidente da Ecoporé, Marcelo Ferronato, o projeto busca transformar áreas hoje consideradas passivos ambientais em espaços capazes de gerar benefícios ambientais e econômicos para as famílias agricultoras.
“A gente vai partir do princípio da restauração ecológica produtiva, em que áreas consideradas um passivo ambiental passam a gerar renda para as comunidades ao mesmo tempo em que promovem a regularização ambiental da propriedade”, destaca Ferronato.
Segundo Marcelo, a recuperação dessas áreas ocorrerá por meio de sistemas que unem espécies nativas e culturas agrícolas de interesse econômico, permitindo que a floresta deixe de ser vista como um obstáculo à produção e passe a ser reconhecida como parte da solução para o desenvolvimento das propriedades
“A recuperação gera renda por meio da produção de sementes, frutas e outros produtos, como o café robusta amazônico. É uma cultura consolidada em Rondônia, com mercado garantido e que pode ser integrada aos programas de regularização ambiental junto às espécies nativas”, acrescenta.
Sistemas Agroflorestais: quando restauração e produção caminham juntas
Os Sistemas Agroflorestais foram o eixo central da formação conduzida pelo professor Dr. Emanuel Maia, do Laboratório de Horticultura Tropical (LaHorTA/UNIR).
Ao longo da capacitação, os participantes discutiram os princípios que orientam esse modelo produtivo e sua contribuição para recuperar áreas degradadas sem abrir mão da produção agrícola.
Segundo o pesquisador, compreender o funcionamento dos SAFs é essencial para que a restauração produza benefícios ambientais e econômicos de forma simultânea.
“Estamos conversando sobre o que são as agroflorestas, quais os impactos que elas têm para a conservação da natureza, a proteção da biodiversidade e a promoção dos serviços ecossistêmicos”, explica o professor.
Na prática, os Sistemas Agroflorestais combinam espécies florestais, agrícolas e outras espécies em um mesmo espaço, favorecendo a recuperação do solo, o aumento da biodiversidade, a proteção dos recursos hídricos e a diversificação da produção ao longo do tempo.

Durante a formação, além de compreender esses princípios, a equipe também desenvolveu os modelos de arranjos agroflorestais que serão utilizados pelo projeto nos assentamentos atendidos.
“Também estamos discutindo e criando modelos de arranjos de agroflorestas para a restauração ecológica e para a produção sustentável nas paisagens florestais”, acrescenta o pesquisador.
Além de transmitir conhecimento técnico, a capacitação aproximou a teoria da realidade que será encontrada em campo. Os participantes discutiram como adaptar os Sistemas Agroflorestais às necessidades das famílias agricultoras, considerando as características produtivas e ambientais de cada propriedade.
Para a analista ambiental Dayana Cataneo, uma das principais contribuições da formação foi compreender que a restauração precisa ser construída junto ao agricultor.
“Primeiro precisamos entender a realidade do agricultor e só depois construir os sistemas agroflorestais mais adequados para a terra dele”, relata a analista ambiental.

Segundo ela, essa mudança de perspectiva reforça a importância dos Sistemas Agroflorestais como ferramenta capaz de integrar conservação e desenvolvimento.
“O que mais me chamou atenção foi perceber que o SAF valoriza as espécies nativas e ainda cria alternativas para diversificar a renda das famílias agricultoras”, avalia.
Essa troca de conhecimentos reflete diretamente na atuação da equipe que está na linha de frente com os produtores. Para o auxiliar de campo Pedro Ferreira, o treinamento trouxe uma nova perspectiva sobre as práticas diárias e mais segurança para dialogar com os beneficiários.
“Com esse curso, foi possível abrir nossas mentes e aprimorar as técnicas que já utilizamos na prática. Isso vai nos permitir realizar as atividades de uma forma que gere ainda mais resultados. Agora vamos chegar na casa dos produtores e explicar com muito mais clareza e praticidade como faremos o SAF“, conta Pedro.

Ele também destaca o impacto técnico do aprendizado no desenvolvimento dos plantios.
“O que aprendi com o professor é que, aplicando essas metodologias, as plantas vão se desenvolver mais rápido e com a qualidade de um SAF ainda mais satisfatório. Acredito que o beneficiário vai ficar impressionado com o resultado”, comemora o auxiliar de campo.
Com a conclusão da formação, a equipe inicia uma nova etapa de preparação para levar ao campo os conhecimentos construídos coletivamente durante a capacitação.
A expectativa é que os Sistemas Agroflorestais implantados pelo projeto contribuam para recuperar áreas degradadas, fortalecer a produção sustentável e ampliar a qualidade de vida das famílias agricultoras atendidas.

Para viabilizar essas ações, o Amazônia Mais Robusta: Territórios Agroflorestais conta com uma ampla rede de parceiros, entre eles Embrapa Rondônia, SEDAM/RO, INCRA/RO, SEMA e SEMAGRIC de Porto Velho, além do IDESAM, WCS Brasil e Aliança pela Restauração da Amazônia. Na ponta, o trabalho é desenvolvido em conjunto com organizações locais, como ASPROL-CUJUBINZINHO, AGRILANÇA, ASPROVERDE, CAFÉ D’ARC, ASPRASSSARI, APRR, ASPRODARC e AAFFA, fortalecendo a implementação das ações junto às comunidades rurais.

