
O corredor de árvores que contorna o Núcleo de Inovação em Restauração Florestal da Amazônia da Ecoporé, em Rolim de Moura, serviu de abrigo para os primeiros encontros entre a Rede de Sementes da Bioeconomia Amazônica (Reseba), iniciativa da Ecoporé, a Rede de Sementes do Acre, coordenada pela Fundação de Tecnologia do Estado do Acre – Funtac, a Associação Metareilá do Povo Indígena Suruí e a Brigada Paiter, da Terra Indígena Sete de Setembro.
Durante dois dias, entre rodas de conversa, estações de aprendizado e visitas a espaços comunitários, sementes e histórias se encontraram, o que costurou saberes sobre restauração, floresta e futuro.
O encontro foi realizado pelo Projeto Regenera, executado pela Ecoporé com o apoio da The Caring Family Foundation, que promove a agricultura regenerativa na Amazônia, fortalece a bioeconomia e a restauração ecológica, tudo isso sem que a floresta precise ser derrubada.

A gerente da RESEBA, Aline Smychniuk, apresenta como funciona a atuação da rede no estado de Rondônia e Sul do Amazonas. Foto: Thiago Alves – FUNTAC
Logo no início, quem ajudou a dar o tom do encontro foi Aline Smychniuk, gerente da Reseba. Com os olhos atentos às conversas que se formavam debaixo das árvores, ela explicou que o encontro não era apenas uma visita técnica, mas uma forma de mostrar que cada semente carrega futuro e renda.
“Esse intercâmbio tem uma grande relevância para a gente conseguir elevar o protagonismo dos nossos coletores de sementes e poder mostrar que a floresta em pé, sim, traz um retorno econômico.”, disse.
Logo se percebia um fio condutor: as mulheres. Na Reseba, a gestão é liderada por Aline Smychniuk, que acompanha de perto o trabalho das coletoras e dá forma a uma rede que hoje se consolida no bioma amazônico.



Na Rede de Sementes do Acre, a presença feminina também é marcante, desde a coordenação até a base com agricultoras, extrativistas e indígenas conduzindo a atividade em diferentes territórios.
No Território Paiter Suruí o protagonismo das mulheres vai desde a coordenação da Metareilá até as coletoras indígenas de sementes nas aldeias. Durante a visita na aldeia Lapetanha foi impossível não notar que são elas, em sua maioria, que carregam a responsabilidade de manter viva a prática.

O ciclo das sementes
No primeiro dia, após uma apresentação sobre a trajetória da Reseba, os visitantes foram guiados por uma experiência diferente: um café mundial com estações espalhadas pelo espaço, onde cada parada revelava uma parte do ciclo da semente até virar muda. Ali se aprendia como subir em árvores com segurança para coletar, como limpar e beneficiar as sementes, como armazená-las e como reduzir a dormência em laboratório. O jatobá foi o exemplo escolhido para mostrar que por trás de cada cápsula dura existe uma potência de floresta.



O percurso terminou no viveiro da Ecoporé, onde os cuidados com a germinação foram compartilhados com atenção aos detalhes. Era como costurar uma narrativa viva: da mata fechada, onde se colhe, até o momento em que uma semente se transforma em árvore para devolver sombra e vida às áreas degradadas.





No fim da tarde, o grupo seguiu para outro espaço que também nasceu do desejo de regenerar. O Espaço Gaia, em Rolim de Moura, floresceu por iniciativa da professora aposentada Helionice de Moura, que decidiu transformar um terreno baldio e cheio de lixo em jardim, refúgio e escola ao ar livre.
Entre árvores floridas de várias cores, Helionice contou como o lugar, que um dia foi depósito de entulho, se transformou em espaço de lazer, cultura e educação ambiental.

Ali, atividades de educação socioambiental, aproximam crianças e adolescentes da natureza. A educadora Ruana Selhorst, responsável pelas ações, contou como as atividades despertam nas novas gerações o cuidado com a natureza ao redor.
Os visitantes se encantaram com a “biblioteca do ônibus” ,um coletivo antigo adaptado com prateleiras cheias de livros de literatura, especialmente de autores de Rondônia.




No Gaia, há brinquedos, trilhas, uma nascente que corta o terreno e até um ônibus antigo transformado em biblioteca com livros de literatura, muitos deles escritos em Rondônia. Naquele dia, uma aula de zumba animava o espaço, enquanto passarinhos cantavam ao redor. Os jovens Paiter Suruí sorriram entre os brinquedos, e os visitantes do Acre descobriram que a educação ambiental também pode nascer no meio da cidade, entre dança, histórias e flores.
A travessia até a aldeia
O segundo dia começou com a “matriz fofa”, conduzida pela engenheira florestal Geisilane Hell, que ajudou os representantes acreanos a organizar um calendário das sementes nativas de seus territórios. Enquanto listavam espécies e épocas de coleta, a expectativa já crescia: em poucas horas, todos estariam na aldeia Lapetanha, na Terra Indígena Sete de Setembro, onde a Metareilá e a Brigada Paiter mantém um viveiro para produção de mudas voltadas a agricultura regenerativa dentro do território.

A Geisilane explica que a matriz fofa é um acrónimo para Forças, Oportunidades, Fraquezas e Ameaças, uma forma de planejamento.
Na aldeia Lapetanha, a recepção veio das coletoras indígenas e do Credival Pabãb Suruí, chefe da Brigada Paiter. Ali, envolta das árvores, as falas circulavam com a mesma força das sementes que carregavam em suas mãos.

Entre elas, a voz da jovem coletora Rebeca Suruí, contou que ser sementeira transformou sua vida. Ela contou que a coleta trouxe alívio financeiro para sua casa, que hoje ajuda com a renda sem precisar derrubar a floresta. Sorriu ao dizer que ir para as coletas também melhora sua saúde mental, porque lhe dá alegria, lhe abre caminhos.
Seu tio, o ancião Agamenon Suruí, também tomou a palavra. Em sua língua, com tradução feita pelo Credival, lembrou que, há muitos anos, ajudou a plantar a floresta que agora envolve a aldeia. “O que plantamos lá atrás hoje vocês colhem em forma de semente”, resumiu, ao mostrar como a vida segue um ciclo saudável quando a relação com a terra é de cuidado e não de destruição.

Inspiração que se espalha
As palavras das coletoras Paiter Suruí tocaram profundamente quem veio do Acre. Valdenice Nukini, da aldeia Vaka Visu, disse que volta para casa motivada: “Aprendi que a semente nos traz muitos benefícios. Quero levar isso para as mulheres, jovens e idosos da minha comunidade. Assim podemos melhorar nossa renda, garantir nossa segurança alimentar e restaurar nossas áreas degradadas.É pensar no agora, mas também nas futuras gerações.”


Para Rosângela Melo, coordenadora da Rede de Sementes do Acre pela Funtac, o intercâmbio foi decisivo para dar corpo a uma rede que ainda está em formação. “Aqui eles viram na prática como funciona. Moram em reservas, em áreas de floresta, e já têm esse recurso nas mãos. Agora, entendendo a cadeia, podem levar esse conhecimento para suas comunidades e multiplicar o que aprenderam”, afirmou.
A floresta como parceira

Nos olhos de Geisilane Hell, que acompanha de perto o trabalho das coletoras, a emoção era visível ao ouvir as falas na aldeia.
Para ela e para Aline Smychniuk, gerente da Reseba, cada semente é muito mais que uma unidade de vida: é também uma história, uma memória e uma chance de futuro.
“Cada sementinha tem uma história. Esse trabalho resgata culturas, conecta gerações e traz retorno econômico e social para dentro das comunidades”, disse Aline.

Assim terminaram os dois dias de intercâmbio: entre estações de aprendizado, flores que nasceram de um terreno baldio, sorrisos de jovens guerreiros e a sabedoria de quem já plantou a floresta no passado. Ficou claro que a bioeconomia das sementes não é apenas uma cadeia produtiva: é também um caminho poético de regeneração.

Para Israel Vale, supervisor do projeto, o intercâmbio consolida o papel do Regenera na transformação concreta de vidas e territórios
“Encontros como esses são excelentes oportunidades para a troca de conhecimentos sobre as iniciativas de restauração em dois Estados da Amazônia, conhecer as experiências e formas de quem cuida dos territórios, da floresta. E isso gerando renda para as famílias e municípios com a floresta em pé. Promover a mudança na vida das pessoas, dos povos da floresta é o que buscamos com o Projeto Regenera.” destacou Israel.
Nesse processo, o Projeto Regenera aparece como motor e impulso: na conexão de iniciativas e redes, na geração de renda e no fortalecimento do protagonismo dos povos da floresta na restauração e gestão de seus territórios.

