Sentidos da Amazônia: Do “dever cidadão” à bioeconomia, evento leva a floresta para o meio da cidade

Ação imersiva no Porto Velho Shopping celebrou o Dia da Amazônia unindo produtos regionais, experiências sensoriais e o alerta de que proteger o bioma é nosso maior compromisso para o futuro.

“A Amazônia tem uma biodiversidade gigantesca, desde o solo até as copas das árvores e o meio aquático. É o nosso dever cidadão preservar a floresta. É dever do Estado e nosso preservar a Amazônia para o futuro das gerações”,  reflete o estudante João Silva, da escola Major Guapindaia. A frase resume com perfeição o sentimento central que norteou a ação “Sentidos da Amazônia”.

Promovido pela Ecoporé em parceria com o Porto Velho Shopping, o evento celebrou o Dia da Amazônia transformando os corredores do Shopping em um verdadeiro convite à imersão ambiental. A proposta foi tirar a floresta apenas do noticiário e colocá-la na ponta dos dedos, no olfato e no paladar do público.

A urgência global e o impacto local

A Amazônia não é apenas uma floresta; ela é um pilar essencial para a vida na Terra, com aproximadamente 6,7 milhões de quilômetros quadrados, este vasto bioma atua como o verdadeiro coração climático do planeta. 

Segundo levantamentos do WWF e do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a Amazônia abriga 10% de todas as espécies conhecidas no mundo — com cientistas descobrindo, em média, uma nova espécie a cada dois dias. Os dados reforçam ainda que a floresta atua como um gigantesco sumidouro de carbono e gera os “rios voadores”, fenômeno que garante as chuvas para a agricultura e a geração de energia em grande parte do continente sul-americano.

Diante das ameaças crescentes de desmatamento e mudanças climáticas, preservar tornou-se uma urgência global. Flávio Santos, gerente de inteligência territorial da Ecoporé, alerta sobre as consequências do cenário atual:

Onça Pintada registrada em armadilha fotográfica.

“O modelo de desenvolvimento que está posto para a Amazônia, baseado na substituição de floresta por áreas agrícolas, pastagens ou de mineração, ameaça a continuidade da agricultura brasileira, assim como a sobrevivência dessa biodiversidade e de modos de vida associados à Amazônia. No entanto, existem formas de produzir e desenvolver de maneira mais sustentável, ecologicamente equilibrada e recuperando a floresta onde foi devastada e esse é um dos motivadores da nossa atividade [aqui no shopping], reflete o Flávio.

Para Marcelo Ferronato, diretor da Ecoporé, essa conscientização precisa alcançar o dia a dia das pessoas, e ocupar o espaço urbano é estratégico para isso.

“A importância de promover um evento como este, no Dia da Amazônia, em parceria com o Porto Velho Shopping, é de extrema relevância porque é um espaço onde muitas pessoas que estão circulando acabam não tendo esse convívio com as notícias e informações sobre a Amazônia”, explica Ferronato. 

A ação é uma forma de conscientizar as pessoas através dos seus sentidos: não só o calor, mas também os cheiros, as texturas, as plantas, as cores e tudo o que a gente tem de rico da nossa biodiversidade. 

O Sabor da Conservação: Lucro e Comunhão com a Floresta em Pé

Durante o evento, a degustação de produtos regionais serviu para provar na prática uma grande vocação do estado: é perfeitamente possível produzir de forma equilibrada, gerar renda com a floresta em pé e viver em plena comunhão com a Amazônia.

Os visitantes puderam vivenciar essa realidade pelo paladar, experimentando cafés, chocolates e uma impressionante variedade de méis. A diversidade surpreendeu o público. “Eu não sabia que o mel podia ter tantas cores e gostos diferentes, achei que era tudo igual”, maravilhou-se o pequeno Pedro, de 8 anos, após provar as diferentes tonalidades regionais.

Esses produtos integram a iniciativa Amazônia Ativa, iniciativa da Ecoporé,  que fortalece a comercialização da sociobioeconomia. A vitrine sensorial montada no shopping contou com a presença da marca rondoniense Amãbyta. Thatiane Costa, co-fundadora e meliponicultor  da marca, destacou o poder de aliar o ganho econômico à preservação:

“A Amãbyta é uma marca amazônica que busca levar o que de melhor nós produzimos dentro desse território em Rondônia. Estar na semana de celebração da Amazônia aqui em Porto Velho é um marco para nós, porque se conecta muito com aquilo que acreditamos: que é esse ambiente onde a gente consegue produzir e também conservar” destaca Thatiane. 

A riqueza produtiva da floresta também pôde ser sentida através da degustação dos conceituados cafés das marcas Don Bento e AF, além dos chocolates Santana, produzidos com cacau genuinamente amazônico.

A presença dessas marcas no evento é o reflexo de uma economia verde atestada por levantamentos oficiais. Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), Rondônia consolidou-se como o 5º maior produtor de café do Brasil e líder absoluto na Região Norte. E o lucro não vem às custas do meio ambiente: um estudo inédito da Embrapa comprovou que o cultivo do Robusta Amazônico, feito por famílias e indígenas, atua como “pulmões extras”, sequestrando mais carbono do que emitindo.

Essa força sustentável também é respaldada pelos registros da Idaron, que apontam o avanço expressivo da apicultura em municípios como Cacoal e Espigão D’Oeste. No setor do cacau, a ciência mais uma vez atesta a comunhão com o bioma: um recente mapeamento territorial divulgado pela Embrapa revelou que 62% das áreas produtoras mapeadas em Rondônia são cultivadas sob a proteção e o sombreamento dos Sistemas Agroflorestais (SAFs).

Conectando as Novas Gerações

No “Jardim Sensorial”, guiado por Ana Paula Albuquerque, gerente de educação da Ecoporé, as crianças puderam tocar e cheirar plantas como erva-cidreira, malvarisco, suculentas e até plantas carnívoras. A interação direta despertou a curiosidade e o respeito pela natureza dentro do ambiente urbano.

“Nosso objetivo aqui é permitir que eles coloquem a mão na terra e plantem uma semente de curiosidade”, destaca Ana Paula. “Quando a criança toca a textura de uma folha, sente o aroma e entende que aquela planta tem vida, ela cria um vínculo de respeito com a natureza que vai levar para sempre.”

Levando a Floresta para Casa

A conexão com a biodiversidade foi além, e o público pôde, literalmente, levar um pedaço da ação para casa. Foram distribuídas mudas de espécies como pupunha, ingá, pitomba, cacau, biribá, garapeira, romã, araçá-boi, rambutã, cupuaçu, ipê, mogno, além de sementes variadas.

Para muitos, a escolha da planta carregou um significado emocional. Jaerdeson Rezende, um dos participantes, adotou uma muda de Jatobá guiado por suas memórias de infância

“Como o sítio do meu avô tinha um pé de jatobá, eu gostava bastante de ficar debaixo daquela árvore conversando com ele. Peguei para plantar no meu quintal e relembrar o passado. Eu sinto que estou fazendo a minha parte”, contou.

A experiência tocou fundo até em quem passava apressado pelas vitrines. A professora Cláudia Martins parou por acaso no estande e saiu de lá com uma muda nas mãos e uma nova perspectiva

“A gente vive na Amazônia, mas a rotina de concreto da cidade nos afasta. Estar aqui hoje, sentir o cheiro dessas plantas e provar nossos produtos me fez lembrar que esse bioma precisa da gente. Nós somos a voz da floresta, precisamos agir em prol dela”, enfatiza a professora.

Para a Ecoporé, que atua com restauração ecológica há mais de duas décadas, cada planta que chega à terra representa um passo em direção a um futuro mais equilibrado. “Fazer com que essas árvores possam crescer, dar sombra e frutos é extremamente relevante para melhorarmos não só a situação das florestas, mas também o ambiente das nossas cidades amazônicas, onde vive grande parte da população”, conclui Ferronato.

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