Lista de espécies ameaçadas cresce na Amazônia: entenda os riscos e as saídas para proteger a fauna

Apesar de somar 105 espécies sob risco, incluindo o macaco-aranha, o tatu-canastra e a azulona, a Amazônia não registrou nenhuma extinção confirmada na nova atualização do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

Gato-maracajá em área de monitoramento de fauna. Foto feita em 2026, RO.

A publicação da nova Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção (Portaria MMA 1.704/2026) acendeu um alerta para a biodiversidade brasileira: 790 espécies da fauna nacional estão ameaçadas, um aumento de 26 espécies e subespécies comparado a lista anterior (Portaria MMA nº 148, de 7 de Junho de 2022). Isso sem contar os vertebrados e invertebrados aquáticos que se somados às espécies terrestres ultrapassam 500 espécies. O dado é preocupante não apenas pelo número elevado, mas porque reflete a perda acelerada de espécies essenciais para a saúde das florestas.

Deste total, cerca de 183 espécies da fauna terrestre pertencem ao bioma amazônico, enfrentando ameaças crescentes como a contaminação de rios por mercúrio, o desmatamento e ações predatórias. Apesar da situação preocupante, os resultados revelam que a degradação na região é um processo mais recente e que ainda existe uma janela de oportunidade para agir e reverter esse quadro.

Para Pedro Bonavigo, bolsista da gerência de Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação Socioambiental da Ecoporé, em meia a era do conteúdo digital acelerado, esse tipo de dado corre o risco de passar despercebido sem o peso real que isso gera no futuro da pauta socioambiental, esvaziando assim o impacto real desse levantamento.

“A maior preocupação atualmente vem da falta de tato na absorção deste tipo de informação pela população geral. Todos sabem que existem animais ameaçados, e a visualização disso em uma tabela é um passo importante, porém ainda são letras em uma tela. Geralmente, poucas pessoas param para imaginar a realidade e perceber que espécies que desempenham importantes serviços ecossistêmicos estão sumindo em um ritmo acelerado”, afirma Pedro.

Portanto o peso da desatenção a esses dados pode gerar a perda permanente dessas espécies que estão sumindo em ritmo acelerado. Porém ainda há tempo para reverter esse cenário, a Ecoporé por meio do projeto Viveiro Cidadão atua diretamente na recuperação dos habitats, através do monitoramento científico e fortalecimento de áreas protegidas ajudando assim a mitigar as pressões que levam os animais a entrarem na lista de extinção. 

Azulona (Tinamus tao)

Entenda as categorias de risco

A portaria adota as categorias da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN): 

  • Vulnerável (VU), 
  • Em Perigo (EN),
  •  Criticamente em Perigo (CR), 
  • Possivelmente Extinta (CR-PE) 
  • Extinta na Natureza (EW).

As categorias mais graves (CR e CR-PE) exigem intervenções emergenciais em prazos mais curtos. Embora não haja um detalhamento público do número exato por categoria na nova publicação, o conjunto das classificações orienta diretamente a priorização de Planos de Ação Nacional (PAN) e de Planos de Redução de Impactos à Biodiversidade (PRIM), instrumentos que vinculam os dados à política ambiental concreta.

Para evitar que esses animais alcancem os níveis mais elevados de ameaça, o trabalho de conservação precisa sair do papel e gerar impacto direto no bioma. Segundo Paulo Bonavigo, biólogo e diretor executivo da Ecoporé, a atuação da instituição foca na criação de condições reais para a recuperação e proteção da fauna amazônica. 

“Para além de  recuperar florestas, a Ecoporé reconecta habitats importantes para garantir a sobrevivência da fauna amazônica diante da pressão da perda de território. Ao unir a ciência da restauração florestal e o monitoramento da biodiversidade com o protagonismo das comunidades tradicionais e indígenas, nós não estamos apenas olhando para o avanço da restauração, estamos criando barreiras vivas e corredores ecológicos que salvaguardam as espécies ameaçadas e devolvem o equilíbrio e o futuro ao nosso bioma,” destaca.

Conheça os guardiões da floresta que estão em risco

A nova lista acendeu o alerta para felinos de médio e pequeno porte, como é o caso do gato-maracajá (Leopardus wiedii) e o gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi), ambos classificados como Vulneráveis (VU). Esses predadores desempenham um papel essencial no controle populacional de pequenos roedores, aves e répteis, evitando a superpopulação de espécies e mantendo a teia alimentar em equilíbrio.

Gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi)

Outras espécies essenciais para o funcionamento do ecossistema também enfrentam ameaças diretas. Primatas como o macaco-zogue-zogue (Plecturocebus brunneus), e o Zogue-príncipe-Bernhardi (Plecturocebus bernhardi) estão classificados como “Vulnerável” (VU) além do macaco aranha (Ateles chamek) classificado como vulnerável na lista anterior que sofreu atualização para em perigo (EN). Da mesma forma aves como a azulona (Tinamus tao) e o jacamim-de-costas-verdes (Psophia viridis) classificadas em Vulnerável também sofrem perigo de desaparecimento. Ao consumirem frutos e espalharem sementes por longas distâncias, essas espécies garantem a germinação, a diversidade genética e a regeneração da vegetação tropical.

Mamíferos terrestres de grande relevância ecológica também integram a categoria Vulnerável, como é o caso do tatu-canastra (Priodontes maximus). Reconhecido como um “engenheiro do ecossistema”, ele escava grandes galerias que aeram o solo, aceleram a decomposição e servem de abrigo para dezenas de outras espécies. A redução populacional desses animais gera uma reação em cadeia que compromete diretamente o ecossistema.

Costurando a floresta: o papel dos corredores ecológicos na sobrevivência da fauna

Diante disso, no intuito de diminuir esse avanço e reconectar espécies isoladas pela degradação surgem os corredores ecológicos, como uma alternativa para a conservação. 

Carlos Zeballos, analista socioambiental da Ecoporé, aponta que a melhor forma de compreender esse fenômeno é imaginar a floresta como um tecido e quando há o desmatamento, esse tecido rasga e sobram só os retalhos isolados criando “ilhas de mata”. O problema é que os animais que ficam presos nessas ilhas, não conseguem sair para buscar comida, encontrar parceiros, fugir de um incêndio ou de uma seca. E aos poucos, essas populações isoladas vão diminuindo até desaparecer.

“O corredor ecológico é justamente uma faixa de vegetação que volta a ligar esses retalhos. Funciona como uma ponte de mata. Ele deixa os bichos circularem de novo, misturarem os genes, recolonizarem as áreas. Na prática, o corredor pega populações que estavam isoladas e condenadas e volta a transformá-las numa população só. Conectada e muito mais resistente. É por isso que ele evita que mais espécies entrem na lista de ameaçadas. Uma espécie conectada tem muito mais chance de sobreviver do que uma espécie ilhada, isolada,” explica o especialista.

No entanto, a simples existência dos corredores não garante que a fauna vá retornar imediatamente. O processo exige anos, às vezes até décadas, e vai depender da largura e das espécies inseridas para um bom funcionamento, necessitando assim do monitoramento constante. 

“O animal não lê mapa. Se essa faixa for estreita demais, se a floresta ainda for jovem, se tiver estrada cortando, cachorro, caça, fogo, muitas espécies simplesmente não vão utilizar. Além do tempo, uma área restaurada não vira uma floresta madura da noite para o dia. A sucessão ecológica leva anos, às vezes décadas, até a estrutura da mata sustentar aquele animal que a gente quer que volte, demora. Então o corredor é necessário, mas não é suficiente. Sozinho, ele precisa de qualidade, ele precisa de largura, de tempo para amadurecer, de proteção e de monitoramento para a gente saber se os animais estão de fato usando aquilo,” pondera Zebalos.

Ciência e comunidade: a fórmula mágica para proteger a biodiversidade

Assim, para reduzir o número de espécies na lista de ameaçadas exige estratégias coordenadas que combinem fiscalização rigorosa, restauração inteligente e ciência de dados. Com base em estudos de modelagem de risco em Unidades de Conservação em Rondônia, Carlos Zeballos destaca que o primeiro passo é conter a perda de vegetação nativa. 

“O passo mais urgente é estancar a sangria: reduzir o desmatamento. Não adianta restaurar de um lado enquanto perdemos a floresta do outro. Além disso, as áreas protegidas só funcionam de verdade quando têm gestão ativa, fiscalização e recurso, e não apenas existência no papel. O segundo caminho é restaurar de forma inteligente, priorizando áreas que trazem mais retorno de conectividade por hectare recuperado. Em resumo: precisamos proteger o que ainda está de pé, reconectar o que foi partido e usar dados para tomar decisões assertivas”, reforça. 

Iniciativas como o Viveiro Cidadão e a Rede de Sementes da Amazônia (Reseba) provam que é possível alinhar o monitoramento da biodiversidade ao envolvimento comunitário na proteção dos territórios. Na Ecoporé, a abordagem científica orienta diretamente as ações de recomposição da vegetação amazônica. A ideia é entender como a fauna lida com a reconexão de blocos de floresta, para assim as ações de restauração realmente serem efetivas e concretizar a reestruturação de ecossistemas florestais.

O Projeto Viveiro Cidadão, executado pela Ecoporé, conta com a parceria da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.


Notícias Relacionadas