Na 4ª Conferência Brasileira Clima e Carbono, a discussão sobre mercado, remoção de emissões e financiamento climático mostrou que, por trás de cada tonelada contabilizada, existem florestas, territórios e pessoas que fazem o resultado acontecer

Uma tonelada de carbono pode parecer pequena quando aparece em uma planilha. Pode ser uma linha em um relatório, um número em uma plataforma de negociação ou uma unidade associada a um crédito. No território, porém, essa mesma tonelada pode estar relacionada a uma floresta que continua de pé, a uma área que deixou de ser desmatada, ao carbono acumulado na vegetação e no solo ou a uma atividade produtiva que encontrou uma forma de gerar renda sem depender da abertura de novas áreas.
É nessa diferença entre aquilo que o mercado consegue transformar em número e tudo o que existe para que aquele número seja produzido que está uma das discussões mais importantes da atual agenda climática. A tonelada é necessária para medir um resultado, comparar emissões e estruturar transações, mas ela não explica sozinha como o carbono foi mantido ou retirado da atmosfera, quem participou desse processo, quais benefícios chegaram ao território e o que precisa acontecer para que o resultado permaneça ao longo do tempo.
A questão esteve no centro da 4ª Conferência Brasileira Clima e Carbono (CBCC), realizada nos dias 27 e 28 de agosto, no Memorial da América Latina, em São Paulo. Promovido pela Aliança Brasil de Soluções Baseadas na Natureza (Aliança Brasil NBS), o encontro reuniu representantes de empresas, governo, instituições financeiras, organizações da sociedade civil, especialistas, comunidades tradicionais e povos indígenas para discutir mercados de carbono, financiamento climático, soluções baseadas na natureza, integridade, monitoramento, regulamentação, remoções e participação dos territórios.
A Ecoporé esteve entre as organizações presentes nesse debate, levando para o encontro uma experiência construída na Amazônia a partir da conservação, da restauração ecológica, do monitoramento ambiental e da busca por alternativas econômicas capazes de aproximar recuperação ambiental e geração de renda. A participação da organização ocorreu em um momento em que o Brasil avança na implementação de seu mercado regulado de carbono e amplia as discussões sobre como diferentes mecanismos financeiros podem contribuir para cumprir as metas climáticas.
Antes de perguntar quanto vale uma tonelada, portanto, existe uma questão anterior: o que essa tonelada representa?
Antes de virar mercado, carbono é parte do clima
O carbono não surgiu por causa do mercado. Ele está presente na atmosfera, nos oceanos, no solo, nas plantas, nos animais e em diferentes materiais que fazem parte da vida cotidiana. O problema climático está relacionado principalmente ao aumento da concentração de determinados gases de efeito estufa na atmosfera em razão das atividades humanas, intensificando a retenção de calor e alterando o equilíbrio do sistema climático.
O dióxido de carbono, o CO₂, é o mais conhecido desses gases e está associado, entre outras fontes, à queima de combustíveis fósseis, ao desmatamento e a determinadas atividades industriais. Metano e óxido nitroso também contribuem para o aquecimento global, mas possuem características e potenciais de aquecimento diferentes. Para permitir que gases distintos sejam comparados em uma mesma conta, utiliza-se o CO₂ equivalente, ou CO₂e, uma medida que converte os efeitos climáticos de diferentes gases para uma referência comum.

É daí que vem uma das expressões mais presentes nas discussões sobre mercado de carbono: tonelada de CO₂ equivalente, ou tCO₂e. Quando uma empresa, um projeto ou uma política climática informa que determinada quantidade de emissões foi reduzida ou que certa quantidade de carbono foi removida da atmosfera, é essa unidade que permite transformar diferentes resultados em uma mesma linguagem de mensuração.
Essa conta, entretanto, envolve processos distintos. Reduzir emissões significa diminuir a quantidade de gases de efeito estufa lançados na atmosfera em relação a uma situação de referência; remover carbono significa retirar CO₂ da atmosfera e armazená-lo em algum reservatório, como a biomassa vegetal ou o solo. Uma floresta em crescimento, por exemplo, pode retirar CO₂ da atmosfera e armazenar carbono na vegetação, enquanto a manutenção de uma floresta que estaria sob risco de desmatamento pode evitar emissões que ocorreriam caso aquela área fosse convertida para outro uso.
O Brasil assumiu compromissos de redução de emissões no âmbito do Acordo de Paris e estabeleceu, em sua nova NDC, uma redução de 59% a 67% das emissões líquidas até 2035 em relação a 2005, mantendo o objetivo de alcançar emissões líquidas zero até 2050. O Plano Clima organiza as políticas de mitigação e adaptação que devem orientar esse caminho, o que faz com que a discussão sobre carbono deixe de ser exclusivamente ambiental e passe também por políticas públicas, investimentos, empresas e diferentes formas de financiamento.
Janaína Dallan, presidente da Carbonext e conselheira da Aliança Brasil NBS, resume a origem desse compromisso ao explicar por que o tema ganhou espaço na agenda brasileira:
“Nós, como país, somos signatários do Acordo de Paris e a gente tem metas de redução de emissões de gases de efeito estufa.”
A existência de uma meta, contudo, não resolve o problema por si só. É preciso saber onde estão as emissões, quais atividades podem reduzi-las, como os resultados serão medidos e de que maneira será possível demonstrar que uma determinada redução ou remoção realmente aconteceu. É nessa passagem entre a meta climática e a comprovação do resultado que o carbono começa a entrar também na economia.
E a camada de ozônio nessa história?
Existe uma confusão frequente quando gases atmosféricos entram na mesma conversa: efeito estufa e camada de ozônio são fenômenos diferentes, embora possam se cruzar em alguns pontos. O aquecimento global está relacionado ao aumento da concentração de gases de efeito estufa e ao desequilíbrio energético do sistema climático. Já a camada de ozônio, localizada na estratosfera, funciona como uma proteção contra parte da radiação ultravioleta do Sol.
A destruição da camada de ozônio ficou historicamente associada principalmente aos clorofluorcarbonetos, os CFCs, e a outras substâncias que foram controladas internacionalmente pelo Protocolo de Montreal. O caso mostra que nem todo problema atmosférico pode ser colocado na mesma categoria e que diferentes substâncias podem produzir impactos diferentes.

Existe, entretanto, uma ligação entre as agendas. O óxido nitroso, ou N₂O, é um potente gás de efeito estufa e também contribui para a destruição da camada de ozônio. Suas emissões estão relacionadas, entre outras fontes, a atividades agrícolas e ao uso de fertilizantes nitrogenados. Por isso, quando a discussão climática trata de gases de efeito estufa, ela está lidando com uma família de substâncias e processos, e não apenas com o CO₂.
A relação é importante para entender por que a palavra carbono acabou se tornando uma espécie de atalho para uma agenda muito maior. O carbono é uma unidade central da discussão climática e dos mercados, mas o problema que se pretende enfrentar envolve diferentes gases, fontes de emissão, ecossistemas, atividades econômicas e decisões humanas.
E é justamente no dia 16 de setembro, Dia Internacional para a Preservação da Camada de Ozônio, que essa diferença volta a ganhar espaço. A data foi criada para marcar a adoção do Protocolo de Montreal e lembrar que problemas ambientais de escala global exigem conhecimento científico, acordos internacionais, monitoramento e mudanças concretas nas atividades que provocam impactos ambientais.
A história da camada de ozônio também ajuda a compreender uma característica da agenda climática atual: medir o problema é parte da solução, mas não é a solução inteira.
Como uma tonelada de carbono ganha valor?
É aqui que entra o mercado. Para que uma redução ou remoção de gases de efeito estufa possa ser transformada em um ativo ambiental, não basta declarar que uma determinada quantidade de carbono foi retirada da atmosfera ou que uma emissão deixou de ocorrer. É necessário estabelecer uma metodologia, definir uma linha de base ou referência adequada, acompanhar o que acontece no território, calcular o resultado e submetê-lo a processos de validação ou verificação conforme as regras aplicáveis.
Uma parte desse trabalho é conhecida pela sigla MRV — monitoramento, relato e verificação. Na prática, é o conjunto de procedimentos que permite transformar uma realidade ambiental em informação verificável. É por meio desse processo que uma floresta, uma área restaurada, um sistema produtivo ou outra iniciativa pode deixar de ser apenas uma promessa de benefício climático e passar a apresentar dados capazes de sustentar uma determinada alegação de redução ou remoção.
A dimensão tecnológica aparece com força nesse processo. Imagens de satélite podem acompanhar mudanças na cobertura vegetal; drones podem produzir informações detalhadas sobre áreas específicas; parcelas permanentes permitem acompanhar o crescimento da vegetação; inventários e medições de campo ajudam a estimar estoques de carbono; modelos matemáticos permitem projetar diferentes cenários; e sistemas digitais organizam informações para que elas possam ser rastreadas e analisadas.
Vinicius Rissoli, CEO da SCCON Geospatial, atua justamente nessa fronteira entre tecnologia e monitoramento. Para ele, a qualidade das informações é parte da estrutura necessária para que o mercado consiga atribuir confiança aos resultados apresentados pelos projetos.
“A construção de um mercado de carbono sólido depende de informações confiáveis e verificáveis. Com esse compromisso, desenvolvemos soluções que unem imagens de satélite, inteligência artificial e monitoramento com Alertas SCCON para apoiar a gestão de riscos. Promovemos transparência e fortalecemos projetos alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, sempre investindo em inovação.”
A tecnologia, porém, não substitui o território. Uma imagem de satélite pode indicar que uma área permaneceu coberta por floresta, mas não mostra sozinha quem participou da proteção daquele espaço, quais acordos foram estabelecidos, como uma comunidade se organizou ou de que maneira uma determinada atividade econômica contribuiu para que a vegetação permanecesse de pé.
É por isso que integridade se tornou uma palavra recorrente nas discussões sobre o mercado. O desafio não é apenas produzir um número, mas demonstrar que ele corresponde a um resultado ambiental real, que não foi contado duas vezes, que segue critérios reconhecidos e que possui mecanismos capazes de sustentar sua permanência.
Scott Dickson Dagondon, chefe de Ciência de Dados da ChrysaLabs, chama atenção para uma dificuldade específica dos projetos de carbono no solo: a diferença entre um resultado tecnicamente bem estruturado e a percepção de valor que ele consegue alcançar no mercado.
“Um projeto de carbono no solo pode ser cientificamente sólido e ainda assim chegar ao mercado como um ativo fraco. Nosso trabalho é garantir que o número que um comprador vê seja um que ele possa precificar com confiança.”
A fala ajuda a explicar por que a discussão sobre carbono envolve muito mais do que árvores e toneladas. Existe uma infraestrutura de conhecimento por trás do número, formada por metodologia, coleta de dados, análise, tecnologia, verificação e certificação.
Soraya Pires, Global Head of Climate Solutions da Biofílica, coloca essa cadeia de confiança em outra perspectiva ao tratar do papel da certificação:
“À medida que o mercado de carbono amadurece, a certificação precisa evoluir na mesma direção, combinando rigor metodológico, monitoramento robusto, transparência e credibilidade.”
A certificação, nesse sentido, não substitui o monitoramento nem a metodologia. Ela integra uma cadeia que busca dar maior segurança sobre aquilo que está sendo apresentado como resultado climático. O ponto central é que, quanto mais o carbono passa a circular como ativo financeiro, maior é a importância de saber de onde veio aquele número, como ele foi calculado e quais evidências sustentam sua existência.
REDD+: quando a floresta entra na conta do clima
Antes mesmo da expansão recente dos mercados de carbono, a conservação das florestas já ocupava espaço importante nas negociações climáticas. É nesse campo que aparece o REDD+, mecanismo internacional relacionado à redução de emissões provenientes do desmatamento e da degradação florestal, além da conservação dos estoques de carbono florestal, do manejo sustentável das florestas e do aumento dos estoques de carbono.
A importância do REDD+ está justamente em reconhecer que uma parte relevante das emissões associadas à mudança do clima está relacionada ao uso da terra e à perda de cobertura florestal. Em países com grandes áreas de floresta tropical, conservar uma floresta pode representar não apenas proteção da biodiversidade, mas também manutenção de estoques de carbono e redução de emissões associadas ao desmatamento.
Ao longo do tempo, o debate sobre REDD+ também passou a incorporar questões que ultrapassam a contabilidade do carbono, como salvaguardas socioambientais, participação das comunidades, direitos territoriais e distribuição dos benefícios. Isso porque uma floresta não é apenas uma área delimitada em um mapa: em muitos territórios, existem pessoas, atividades econômicas, conhecimentos tradicionais e formas próprias de organização que precisam fazer parte das decisões relacionadas à conservação.
Essa dimensão ajuda a entender uma mudança importante no debate atual. Não basta perguntar quanto carbono uma floresta representa; é preciso perguntar que condições permitem que ela continue existindo e quem participa dessas condições.
Na Amazônia, essa relação ganha outra escala. Uma floresta armazena carbono, mas não é simplesmente um estoque de carbono: ela participa do ciclo da água, abriga biodiversidade, protege o solo, fornece alimentos e matérias-primas e sustenta atividades econômicas, sociais e culturais. Quando a floresta é alterada, os impactos podem atingir simultaneamente diferentes dimensões da vida no território.
Janaína Dallan chama atenção justamente para essa impossibilidade de separar a agenda climática das pessoas que vivem na floresta:
“Não tem como a gente fazer uma dissociação, né? Falar sobre clima e carbono e não falar das pessoas que estão no território.”
Ela lembra que grande parte da Amazônia está em território brasileiro e que milhões de pessoas vivem em diferentes contextos dentro desse bioma, muitas delas mantendo relações diretas com os recursos naturais. São também essas populações que experimentam de maneira concreta efeitos como secas mais intensas, alterações na disponibilidade de água, calor extremo, incêndios e mudanças nas condições de produção e deslocamento.
A dimensão social também aparece na fala de Monique Vanni, diretora de País da Wildlife Works no Brasil, para quem a discussão sobre soluções baseadas na natureza não pode ser dissociada das pessoas que vivem nos territórios:

“Toda solução baseada na natureza é uma solução baseada em pessoas. O Brasil só vai realizar seu potencial no mercado de carbono se as comunidades que vivem nos nossos biomas estiverem no centro da decisão, com autonomia real sobre seus territórios e sobre os recursos que chegam até elas.”
A frase desloca o foco da floresta como objeto de financiamento para a floresta como território vivido. O recurso financeiro pode contribuir para conservar ou restaurar uma área, mas seus efeitos dependerão também de como o projeto é estruturado, quem participa das decisões, quais atividades são apoiadas e de que forma os benefícios chegam às pessoas.
Por que alguém compraria uma tonelada?
A pergunta parece financeira, mas a resposta volta para o clima. Se conservar uma floresta, restaurar uma área degradada ou modificar uma atividade produtiva exige recursos, mecanismos de financiamento podem criar condições para que essas ações sejam mantidas durante o período necessário para produzir resultados ambientais.
Manter uma área conservada pode envolver monitoramento, prevenção e resposta a incêndios, gestão territorial, acompanhamento de mudanças no uso da terra e fortalecimento de organizações locais. Restaurar uma área exige sementes, mudas, mão de obra, preparo, plantio, manutenção e acompanhamento durante anos. Em ambos os casos, existe um custo que precisa ser considerado quando se fala em ampliar essas iniciativas.
É nesse ponto que o mercado de carbono pode funcionar como uma fonte adicional de financiamento. Um crédito associado a uma redução ou remoção representa um resultado climático mensurado e, quando adquirido, pode direcionar recursos para a atividade que produziu esse resultado, de acordo com a estrutura financeira e as regras do projeto.
Isso não significa que a compra de um crédito, sozinha, seja suficiente para conservar uma floresta. A qualidade do projeto, a metodologia utilizada, a adicionalidade, a permanência, a verificação, a governança e a distribuição dos benefícios são elementos que interferem no resultado. O carbono também não substitui a necessidade de políticas públicas de conservação, fiscalização, ordenamento territorial e redução direta das emissões.
Um estudo do Imazon sobre a pecuária bovina na Amazônia ajuda a visualizar essa discussão a partir do uso da terra. O trabalho aponta que o aumento da produtividade das pastagens poderia reduzir a área necessária para atender à demanda projetada, criando espaço para outros usos, entre eles restauração florestal, produção de madeira e serviços ambientais, além de apontar o potencial de geração de receitas associado ao mercado de captura de carbono por restauração.
Segundo o estudo, em 2022 a pecuária bovina ocupava cerca de 75 milhões de hectares na Amazônia Legal, correspondendo a aproximadamente 80% da área agropecuária da região, enquanto 54% das pastagens apresentavam algum grau de degradação. O dado não significa que toda área degradada será automaticamente convertida em floresta, mas ajuda a mostrar o tamanho do desafio e a possibilidade de reorganizar o uso de áreas já abertas.
A pergunta, então, deixa de ser simplesmente “produzir ou conservar?” e passa a ser como produzir melhor nas áreas já abertas e criar condições econômicas para que a restauração também tenha valor no território.
“A floresta não cabe em uma tonelada“
A própria programação da CBCC refletiu essa ampliação de perspectiva. Um dos painéis recebeu o título “É muito mais do que carbono: floresta, água, biodiversidade e gente”, colocando lado a lado elementos que muitas vezes aparecem separados nas discussões sobre clima.
O carbono continua sendo uma unidade necessária para medir resultados climáticos, mas os benefícios associados à conservação e à restauração podem alcançar outras dimensões. A recuperação de uma área pode significar aumento da cobertura vegetal, melhoria das condições do solo, recuperação de habitats, proteção de recursos hídricos, produção de alimentos, geração de trabalho e fortalecimento de cadeias econômicas locais.
É justamente por isso que os projetos de restauração desenvolvidos pela Ecoporé não trabalham apenas com uma variável. Em documentos técnicos da organização, o acompanhamento de áreas restauradas considera aspectos como cobertura vegetal, riqueza de espécies, regeneração, solo e estoque de carbono, utilizando ferramentas como parcelas permanentes, imagens, drones, bases geoespaciais e modelagens.
Em um dos projetos técnicos da organização, o monitoramento do carbono utiliza parcelas já acompanhadas pela Ecoporé e áreas de referência para estimar a dinâmica da biomassa e do carbono ao longo do tempo. O desenho também prevê indicadores sociais e etnoecológicos, mostrando que a recuperação ambiental pode ser acompanhada simultaneamente por indicadores ecológicos e territoriais.
O carbono, nesse caso, não desaparece da equação. Ele passa a ocupar seu lugar dentro de uma equação maior.
Quando o financiamento climático chega às pessoas
É nessa dimensão que a história de Elayne Camilo, diretora da Associação Mulheres da Terra, do Acre, ganha força. Durante a conferência, ela levou para um espaço dedicado ao clima uma experiência que poderia parecer distante de uma discussão sobre créditos de carbono: o enfrentamento à violência doméstica e a construção de autonomia econômica para mulheres.
A associação atua com mulheres e trabalha também com geração de emprego e renda. A conexão com a agenda de carbono ocorre porque um projeto desenvolvido no território apoia essas iniciativas, permitindo que recursos associados a uma atividade ambiental também contribuam para fortalecer uma organização que atua diretamente sobre uma questão social.

Elayne explica essa relação a partir de sua experiência como psicóloga:
“Eu, enquanto psicóloga, entendo que a geração de renda possibilita autonomia. E, possibilitando a economia, a gente gera opção de escolha.”
A questão é especialmente concreta em situações de violência doméstica, nas quais a dependência financeira pode limitar as alternativas de uma mulher que vive com um agressor. Segundo Elayne, uma frase recorrente no território ajuda a dimensionar esse problema: “o agressor também é o provedor daquela casa”.
Quando uma mulher passa a ter acesso a renda, mercado e possibilidade de comercializar aquilo que produz, a mudança não aparece apenas em um indicador econômico. Ela pode significar a construção de uma alternativa concreta diante de uma situação de violência.
“A gente está falando não de mudar o mundo, não de mudar a vida daquela mulher, mas de que ela tenha a possibilidade concreta de romper um ciclo de violência, tendo mais escolha, tendo mais direito de escolher.”
É nesse ponto que a expressão justiça climática deixa de ser uma formulação abstrata. Para Elayne, discutir clima também significa discutir dignidade, autonomia e condições concretas para que as pessoas possam tomar decisões sobre suas próprias vidas.
“Isso, para mim, não é sobre dinheiro. É muito mais do que isso. É tocar outras vidas, é fazer por outras vidas.”
O resultado dessa experiência não aparece necessariamente em uma tonelada de CO₂ equivalente e não pode ser reduzido ao preço de um crédito. Ele aparece na vida das pessoas que conseguem acessar oportunidades que antes não estavam disponíveis.
Essa mesma relação entre recuperação ambiental e economia aparece nos projetos de restauração trabalhados pela Ecoporé. Na região Madeira-Mamoré, os modelos agroflorestais previstos pela organização associam recuperação de áreas degradadas, produção, segurança alimentar e geração de renda, combinando espécies nativas e produtivas e trabalhando também com capacitação de agricultores e jovens.
A ideia é particularmente relevante em territórios onde a restauração precisa disputar espaço com atividades econômicas que já existem. Em vez de tratar a recuperação ambiental como uma atividade isolada da produção, os sistemas agroflorestais podem criar uma ponte entre conservação, produção e renda, desde que sejam adequados às condições de cada território e acompanhados ao longo do tempo.
A cadeia de sementes também entra nessa equação. Coletar sementes, produzir mudas, preparar áreas, plantar, realizar manutenção e monitorar o crescimento da vegetação são atividades que exigem trabalho e conhecimento, criando uma cadeia econômica em torno da própria restauração.
O estudo do Imazon sobre pecuária ajuda a enxergar a outra ponta desse processo: melhorar a produtividade de áreas já abertas pode reduzir a pressão pela abertura de novas áreas e criar condições para que terrenos de baixa produtividade sejam destinados a outros usos, incluindo restauração e serviços ambientais.
Quando essas duas discussões se encontram, o carbono aparece como uma possível fonte de financiamento para uma transformação maior do território. Não se trata apenas de colocar preço na floresta, mas de criar mecanismos capazes de remunerar resultados ambientais sem retirar do território as pessoas que fazem parte deles.
O que precisa existir antes de uma tonelada chegar ao mercado
Uma tonelada de carbono não nasce como um número. Antes de aparecer em uma plataforma, em um certificado ou em uma negociação, existe um processo que começa muito antes da transação financeira e depende de condições concretas no território.
Em uma área de restauração, pode haver coleta de sementes, produção de mudas, escolha de espécies, preparação do terreno, plantio, manutenção e monitoramento. Em uma floresta conservada, pode existir prevenção de incêndios, acompanhamento da cobertura vegetal, organização comunitária, governança territorial e atividades econômicas que ajudam a reduzir a pressão sobre a floresta.
Nos projetos da Ecoporé, esse acompanhamento pode envolver parcelas permanentes, áreas de referência, monitoramento da regeneração, avaliação da composição vegetal e modelagens para estimar a dinâmica do carbono. Em propostas técnicas da organização, indicadores sociais e etnoecológicos também aparecem associados ao monitoramento ecológico, justamente porque o resultado de uma ação de restauração não está restrito ao estoque de carbono.
Essa cadeia é o que permite que uma realidade complexa seja traduzida em uma unidade que o mercado consegue compreender. O número é produzido pelo território, mas precisa retornar ao território na forma de condições para que aquele resultado continue existindo.

Remover carbono é uma corrida contra o tempo — e a floresta tem seu próprio tempo
Outro tema de destaque na conferência foi a remoção de carbono. A remoção ocorre quando o CO₂ é retirado da atmosfera e armazenado em reservatórios, como a biomassa vegetal e o solo. Em uma área de restauração, por exemplo, o crescimento das plantas pode aumentar gradualmente o estoque de carbono acumulado no ecossistema.
O problema é que a floresta não acompanha o relógio do mercado financeiro. Uma transação pode ser registrada em determinado momento, enquanto a vegetação precisa de anos ou décadas para crescer e acumular carbono. Durante esse período, incêndios, secas, degradação, eventos extremos ou mudanças no uso da terra podem alterar o resultado esperado.
É por isso que a remoção exige acompanhamento ao longo do tempo. Não basta saber quanto carbono pode ser acumulado; é necessário compreender como esse estoque evolui, quais riscos podem afetá-lo e quais mecanismos serão utilizados para acompanhar sua permanência.
Juliana Rolla, CEO da OMA, sintetiza a dimensão econômica dessa discussão ao defender que as remoções precisam ser estruturadas para gerar valor ambiental e financeiro de maneira continuada:
“Remoções de carbono são a chave para a integridade e escala do mercado global. Na OMA, estruturamos modelos de negócios para gerar valor socioambiental e financeiro contínuo. Estar na CBCC fortalece nosso compromisso com soluções definitivas.”
A participação de Marcelo Ferronato, secretário executivo da Aliança pela Restauração da Amazônia, aproximou a discussão da experiência de organizações que atuam diretamente no território. Para ele, acompanhar a Conferência é fundamental para entender a evolução do mercado, formar novas conexões e garantir que o conhecimento gerado retorne como ação prática para as áreas restauradas.

Ferronato reforça que a restauração ecológica e a conservação são os verdadeiros motores do mercado climático, mas faz um alerta sobre como o tema deve ser encarado na prática. “Na Ecoporé, entendemos que o carbono é uma consequência do trabalho bem feito no chão da floresta. Nossa atuação busca conectar o conhecimento científico e o monitoramento ao protagonismo de quem vive e protege a Amazônia”, explica.
Ele também lembra que a natureza tem seu próprio ritmo biológico e que as remoções de carbono via restauração exigem tempo e paciência. Para que esses resultados climáticos se sustentem ao longo dos anos com integridade, a solução vai além das árvores. “É indispensável fortalecer a governança territorial e assegurar que as comunidades locais sejam protagonistas e beneficiárias diretas desse processo”, ressalta.
A discussão ganha outra camada quando entra o Artigo 6º do Acordo de Paris, que estabelece formas de cooperação internacional para que os países possam atuar conjuntamente na redução de emissões. Entre esses mecanismos estão as transferências internacionais de resultados de mitigação, conhecidas como ITMOs.
Na prática, isso significa que um resultado climático produzido em um país pode, sob determinadas regras e autorizações, ser transferido para utilização por outro país no cumprimento de seus compromissos. A possibilidade amplia o potencial de circulação de recursos internacionais, mas também aumenta a necessidade de regras claras sobre origem, registro, contabilização e uso desses resultados.
Um dos principais problemas que o sistema precisa evitar é a dupla contagem. Se uma mesma redução de emissão for contabilizada pelo país onde ocorreu e, ao mesmo tempo, utilizada por outro país para cumprir sua própria meta climática, o resultado poderá ser contabilizado duas vezes, comprometendo a integridade da contabilidade global.
É por isso que as discussões sobre ITMOs envolvem temas como adicionalidade, permanência, rastreabilidade, transparência e segurança jurídica. A nota técnica da Aliança pela Restauração da Amazônia sobre o tema também aponta o potencial desses mecanismos para ampliar a entrada de capital internacional destinado à restauração, desde que existam condições de integridade e segurança capazes de sustentar essas operações.
O ponto central é que o capital internacional pode ajudar a ampliar a escala das ações, mas precisa encontrar projetos capazes de demonstrar resultados ambientais reais e territórios nos quais existam regras claras de participação e decisão. O mercado precisa saber o que está comprando; o território precisa saber o que está sendo financiado, em quais condições e com quais benefícios.
A floresta pode gerar carbono, mas o carbono precisa ajudar a floresta.
Existe uma mudança importante quando o carbono deixa de ser entendido apenas como um produto financeiro e passa a ser tratado também como uma ferramenta para financiar transformações no uso da terra. A restauração pode recuperar áreas degradadas e retirar carbono da atmosfera, mas também pode gerar trabalho, fortalecer cadeias de sementes e mudas, diversificar a produção e criar alternativas econômicas para famílias rurais.
Essa relação aparece de diferentes maneiras nos projetos da Ecoporé. Na região Madeira-Mamoré, os sistemas agroflorestais associam espécies nativas e produtivas, recuperação ambiental, segurança alimentar e geração de renda, enquanto as ações de capacitação procuram fortalecer agricultores, jovens e a própria cadeia econômica ligada à restauração.
Em outro conjunto de propostas técnicas, o acompanhamento combina indicadores de vegetação, regeneração, cobertura do solo e carbono, mostrando que a recuperação de uma área precisa ser observada como um processo ecológico e social. O carbono é uma das variáveis que ajudam a medir o resultado, mas não substitui as demais.
É também nesse ponto que a discussão sobre integridade ganha dimensão social. Fernanda Almeida, Head de Sustentabilidade da Elo, relaciona a confiança no mercado à capacidade de criar condições para que soluções baseadas na natureza sejam valorizadas:
“Um mercado de carbono íntegro e eficiente é fundamental para acelerar a transição climática e valorizar soluções baseadas na natureza. Na Elo Eco, trabalhamos para ampliar a confiança, a transparência e o acesso a esse mercado.”
A palavra valor, nesse caso, pode ser entendida em mais de um sentido. Existe o valor financeiro atribuído a um crédito, mas existe também o valor ambiental, social e territorial de uma floresta conservada ou de uma área restaurada. O desafio está em fazer com que a primeira forma de valor não apague as demais.
O que está realmente sendo negociado?
Talvez essa seja a pergunta que atravesse toda a conferência. Em uma operação de mercado, negocia-se um ativo associado a uma quantidade mensurada de redução ou remoção de gases de efeito estufa. Para que essa operação seja possível, são necessários dados, metodologias, monitoramento, verificação, registros e regras capazes de dar confiança ao resultado.
No território, porém, a história é muito maior. Existe uma floresta que pode estar sendo protegida, uma área degradada que pode estar sendo recuperada, sementes que precisam ser coletadas, mudas que precisam ser produzidas, famílias que precisam encontrar renda, associações que precisam se organizar e pessoas que precisam participar das decisões sobre aquilo que acontece em seus territórios.
O mercado trabalha com unidades, preços e contratos; a floresta trabalha com ciclos ecológicos. Uma plataforma consegue registrar uma tonelada em segundos, mas o território pode levar anos para produzir, acumular e manter o carbono associado àquele resultado. É justamente por isso que a tecnologia, o financiamento e a regulamentação precisam estar conectados às condições reais que sustentam a conservação e a restauração.
A experiência relatada por Elayne mostra o que pode acontecer quando essa discussão chega à ponta. Para ela, a justiça climática não está em uma definição abstrata, mas na possibilidade concreta de uma mulher conquistar autonomia e romper um ciclo de violência.
“Não é utopia você realizar a justiça climática. (…) Isso é justiça climática aplicada na prática”, destaca a psicóloga.
A frase devolve a discussão para onde ela começou: o território. Porque, antes de ser convertido em tonelada, preço, crédito ou ativo, o carbono está inserido em sistemas naturais e sociais que precisam continuar funcionando para que aquele resultado tenha significado.
A tonelada é a medida. A floresta é o lugar onde ela ganha sentido.
A 4ª Conferência Brasileira Clima e Carbono terminou, mas as perguntas colocadas durante os dois dias permanecem abertas. O Brasil precisa reduzir emissões, ampliar sua capacidade de remover carbono, recuperar áreas degradadas, conservar florestas e desenvolver mecanismos de financiamento capazes de sustentar essas ações ao longo do tempo. Para isso, também precisa medir resultados e construir sistemas que permitam diferenciar uma promessa de um resultado comprovado.
Medir, entretanto, não significa reduzir a realidade ao número medido. Uma tonelada de CO₂ equivalente pode ser a unidade necessária para o mercado, para uma metodologia ou para uma negociação internacional, mas não é a unidade de tudo o que acontece em uma floresta.
Por trás dela podem existir árvores crescendo, carbono acumulado no solo, água protegida, biodiversidade conservada, produção sustentável, sementes coletadas, mudas produzidas, trabalho, renda e conhecimento local. Existem também pessoas que vivem nesses territórios, tomam decisões, desenvolvem atividades econômicas, participam de processos de restauração e encontram maneiras de manter a floresta de pé.O carbono pode ser contabilizado em toneladas. A vida que mantém esse carbono no território não cabe nessa conta.
O desafio da agenda climática, portanto, não está em escolher entre mercado e floresta, tecnologia e conhecimento local, financiamento e conservação. Está em fazer com que essas ferramentas trabalhem na mesma direção, de modo que o valor atribuído ao carbono ajude a sustentar os processos ambientais e sociais que tornam aquele resultado possível.
Quando o dinheiro chega ao território, a pergunta não deveria terminar em quantas toneladas foram geradas. Ela começa ali: o que essa tonelada ajudou a manter vivo?

