Iniciativa atua no Parque Nacional Mapinguari e na Floresta Nacional de Balata-Tufari para restaurar áreas degradadas, fortalecer a conservação e ampliar oportunidades sustentáveis em uma região marcada por pressões socioambientais.
Na Amazônia, floresta e memória compartilham o mesmo território. Entre rios, trilhas e áreas de floresta densa, histórias contadas por diferentes gerações atuam como forma de explicar o elo entre as pessoas, o território e os limites da exploração dos recursos naturais. A lenda do Mapinguari, presente no imaginário de povos indígenas e comunidades amazônicas, fala de um ser que habita a mata e impõe limites a quem a explora sem respeito. Essa referência simbólica dá nome ao Parque Nacional Mapinguari e inspira a atuação do Projeto Restaura Mapinguari–Balata, executado pela Ecoporé, que transforma esse imaginário em ações concretas de restauração ecológica e fortalecimento da conservação no sul da Amazônia.

Mais do que um elemento do folclore regional, na tradição o Mapinguari representa a ideia de vigilância e cuidado com a floresta. Hoje, essa referência se traduz em ações concretas de restauração ecológica, conservação da biodiversidade e fortalecimento dos vínculos entre as Unidades de Conservação e as comunidades do entorno.
Um território marcado por desafios
O Projeto Restaura Mapinguari–Balata atua no Parque Nacional Mapinguari e na Floresta Nacional de Balata-Tufari, no interflúvio dos rios Purus e Madeira. A região está inserida no Arco do Desmatamento e é cortada pela BR-230, a Transamazônica.
As duas Unidades de Conservação somam cerca de 2,85 milhões de hectares e enfrentam desafios históricos relacionados à abertura de estradas, ao desmatamento, às queimadas, à fragmentação de habitats e à degradação do solo.
Nesse contexto, o projeto integra um conjunto de iniciativas que buscam transformar esse território em um Arco da Restauração, reposicionando a recuperação de áreas degradadas, a conservação da biodiversidade e o uso sustentável do solo como eixos do desenvolvimento regional.
Do imaginário da floresta à ação concreta no território
Assim como a lenda do Mapinguari simboliza a defesa da floresta, o projeto busca, na prática, fortalecer os processos naturais de regeneração e criar condições para que a biodiversidade volte a ocupar áreas impactadas. A restauração ecológica é realizada a partir de diferentes técnicas, como regeneração natural assistida (RNA), semeadura direta de espécies nativas e implantação de Sistemas Agroflorestais (SAFs), sempre adequadas aos níveis de degradação identificados em campo.
As ações são orientadas por planejamento técnico, mobilização comunitária, diagnósticos ambientais detalhados, uso de sensoriamento remoto e monitoramento contínuo, garantindo decisões baseadas em evidências e ajustes ao longo do tempo.
Comunidades como guardiãs do território
O envolvimento das comunidades locais e populações tradicionais é parte central da estratégia. Moradores do entorno participam da coleta de sementes, da produção de mudas e da implantação e manutenção das áreas restauradas, visando a geração de renda e fortalecendo a relação com o território.

Esse processo contribui para o reconhecimento dos saberes locais e reforça o papel das comunidades como verdadeiras guardiãs do território — uma ponte simbólica entre o imaginário do Mapinguari e as estratégias contemporâneas de conservação e justiça socioambiental.
Impactos esperados para a floresta e para as pessoas
O Projeto Restaura Mapinguari–Balata prevê a restauração de mais de 300 hectares de áreas degradadas nas Unidades de Conservação, a ampliação da cobertura vegetal nativa e da conectividade entre fragmentos florestais, além da redução da vulnerabilidade a incêndios.
No campo social e econômico, a iniciativa busca fortalecer a participação comunitária na conservação da floresta, ampliar capacidades técnicas locais e estimular atividades produtivas compatíveis com a manutenção dos ecossistemas.

“Esperamos que, ao final do projeto, as cicatrizes do desmatamento estejam em processos avançados de cura, com os beneficiários valorizando ainda mais a floresta em pé e tendo uma perspectiva de aumento de renda familiar com os SAFs e maior entendimento sobre conservação. Somado a isso, um estreitamento de laços entre a Ecoporé e o ICMBio, apoiando-os em ações de gestão territorial e comunitária”, destaca Peterson Campos, supervisor técnico do projeto.
Parcerias para a restauração da floresta
O projeto é realizado pela Ecoporé em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), no âmbito do Floresta para o Bem-Estar.
A iniciativa é implementada pela Conservação Internacional (CI-Brasil) e financiada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com recursos do Fundo Amazônia. O objetivo é apoiar a restauração de áreas degradadas e fortalecer a cadeia de mudas e sementes no Acre, Amazonas, Mato Grosso e Pará, bem como sensibilizar a sociedade sobre a importância da restauração.
Ao unir ciência, políticas públicas, participação comunitária e os saberes de quem habita na Amazônia, o projeto reforça a ideia de que proteger o território de Mapinguari é, hoje, uma tarefa coletiva — feita de planejamento, ação no campo e compromisso com o futuro da floresta.

