Entrega Técnica do SAF Cassupá Salamai mostra força da restauração produtiva

Parceria entre comunidade, Ecoporé e ISA transforma antigo campo de futebol abandonado em modelo de restauração produtiva, geração de renda e fortalecimento cultural em Porto Velho 

A paisagem periurbana de Porto Velho, em Rondônia, ganhou um novo capítulo com a implementação de um Sistema Agroflorestal (SAF) na Comunidade Indígena Cassupá e Salamãi. Executado pela Ação Ecológica Guaporé (Ecoporé) em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), o projeto iniciou suas atividades em outubro de 2023 com a importante missão de apoiar a reivindicação territorial da comunidade, que nas suas demandas foi provocada a dar utilidade a área reivindicada. Assim colaboramos para que esse espaço se tornasse produtivo, impactasse na segurança alimentar e geração de renda. A atividade celebra um ciclo de três anos de cooperação e o início de uma etapa de mais autonomia para a comunidade.

A área escolhida para a implementação do SAF carrega um profundo simbolismo de regeneração. Onde antes funcionava um antigo campo de futebol desativado e um espaço vulnerável à degradação social e ambiental, a biodiversidade amazônica agora pulsa. Selmo Cassupá de Souza, presidente da Organização dos Povos Indígenas Cassupá e Salamãi (OPICS), relembra o passado difícil do local:

“Anteriormente, esse campo era um local onde era problemático. Muitos, inclusive, usavam o antigo local para se esconder e praticar assaltos aqui ao lado, no posto de combustível e também na nossa comunidade. Acompanhar esse processo de evolução foi muito importante, porque a gente viu o tanto que a gente conseguiu transformar, agora dando mais vida para um local que anteriormente só juntava coisas ruins.”

Indígena observa sistema agroflorestal na Terra Indígena Cassupá e Salamai (Foto: Flávio Santos/Acervo Ecoporé)
Indígena observa sistema agroflorestal na Terra Indígena Cassupá e Salamai (Foto: Flávio Santos/Acervo Ecoporé)

Essa mudança exigiu esforço técnico e comunitário. Para reverter esse cenário, a equipe técnica prescreveu e realizou intervenções de manejo ecológico. A leguminosa colocada atuou diretamente como adubação verde, elevando os índices de matéria orgânica e fixando nitrogênio biologicamente no solo. As mudas selecionadas visam a produção de alimentos e a recomposição da vegetação nativa. Em conjunto, foram implementadas ações de manejo constante para controle de gramíneas exóticas e enriquecimento.

Conforme destaca Mateus Rezende, analista socioambiental do ISA e representante do Redário, o tempo e o manejo correto trouxeram ótimos resultados:

“Hoje com maior tempo já de restauração, usando esse método de restauração produtiva, a gente vê que a área tá desenvolvendo bastante, no seu tempo ali, com algumas melhorias, melhorias no solo, melhorias na matéria orgânica, na profundidade do solo.”

A agrofloresta replica a floresta com suas várias camadas associada à produção sustentável. Esse sistema agroflorestal foi desenhado pensando nessas camadas (estratos) e nos ciclos produtivos. Essa organização permite produzir de tudo em tempos diferentes: o alimento que vai para a mesa hoje e os frutos que vão garantir o sustento das próximas gerações. 

Sistema agroflorestal na Terra Indígena Cassupá e Salamai (Foto: Flávio Santos/Acervo Ecoporé)
Sistema agroflorestal na Terra Indígena Cassupá e Salamai (Foto: Flávio Santos/Acervo Ecoporé)

Na camada superior, se destacam espécies florestais nativas de alto valor, como a andiroba e o cupuaçu, acompanhadas de castanheiras. As camadas intermediária e inferior abrigam culturas agrícolas dinâmicas, como a banana, o abacaxi, a mandioca e o quiabo.

É o resgate da identidade e da dignidade de seu povo. Para Luiza Cassupá, jovem liderança indígena do povo Cassupá, o SAF representa mais do que o sustento material.

“Representa um pensamento assim, de força, né, pra nós, povos indígenas Cassupá, que nós ainda não tínhamos nenhuma roça, uma plantação tão bonita quanto essa. Um campo extenso aqui que a gente usou com parceria da Ecoporé pra fazer essa plantação tão bonita. Vários frutos, urucum, principalmente pra gente usar nas nossas pinturas, nossos grafismos. Então, isso representa um momento de alegria para nós.”

Os reflexos econômicos da iniciativa já começaram a se consolidar, cumprindo com êxito as metas de sustentabilidade traçadas no planejamento original do projeto. Selmo Cassupá compartilha com entusiasmo os impactos financeiros dessa produção:

“Através desse SAF a gente já tá conseguindo produzir e já tá conseguindo, inclusive, vender algumas coisas, já conseguimos vender alguns produtos e o recurso arrecadado vai ser investido na própria comunidade, na infraestrutura, inclusive, da nossa comunidade.”

Indígenas, equipe da Ecoporé e ISA acompanham evento na TI Cassupá Salamai (Foto: Juan Rodrigues/Acervo Ecoporé)
Indígenas, equipe da Ecoporé e ISA acompanham evento na TI Cassupá Salamai (Foto: Juan Rodrigues/Acervo Ecoporé)

A entrega técnica marcou o momento em que a comunidade assume integralmente o protagonismo e a gestão da área, consolidando o aprendizado prático construído no plantio e manutenção. Sheila Noele, diretora técnica da Ecoporé, enfatiza que o sucesso da iniciativa superou as expectativas iniciais e servirá como uma ferramenta política de afirmação territorial:

“Essa entrega técnica foi passar o bastão. Foi uma entrega simbólica da área para comunidade, para que de fato eles manejem essa área. E na conversa, a gente viu que o objetivo foi atingido. Eles estão tirando alimento dessa área, já consomem a banana, o urucum, o abacaxi. Essa área hoje ninguém mais destina lixo, não é mais considerada uma área abandonada. E isso vai servir de argumentação, servir de subsídio para que eles consigam incorporar essa área ao território.”

Com os horizontes ampliados e o solo revitalizado, a comunidade projeta expandir as linhas de plantio. Olhando para o futuro e para as próximas gerações que crescerão sob a sombra protetora do novo pomar florestal, Luiza Cassupá resume o sentimento coletivo de esperança:

“Expectativa é de nós crescermos ela, plantar ainda mais coisas e deixar aí pros nossos futuros que estão vindo aí, pra eles darem continuidade também nesse bonito trabalho.”

Notícias Relacionadas