Rede articulou a aquisição de mais de 67 mil quilos de sementes nativas, envolvendo 747 coletores, 135 espécies e promovendo renda, equidade de gênero e fortalecimento da governança territorial em diferentes regiões da Amazônia.
A floresta amazônica sempre foi lugar de vida. No estado de Rondônia e Sul do Amazonas, trilhas abertas no cotidiano, às margens de rios e nos quintais das comunidades, 747 coletores e coletoras reuniram sementes que hoje sustentam projetos de restauração ecológica em diferentes regiões da Amazônia. Por meio da atuação da Rede de Sementes da Bioeconomia da Amazônia (RESEBA), executada pela Ecoporé, mais de R$ 3,3 milhões circularam diretamente nos territórios, fortalecendo economias locais e garantindo renda a famílias que vivem da floresta e com a floresta. Os dados levantados se referem à 2025.

Na Aldeia Santo André, localizada na Terra Indígena Pacaás Novas, Marisa Oro Nao é o rosto de uma transformação que une tradição e autonomia. Para ela, o artesanato sempre foi mais que uma fonte de renda; é uma ferramenta de permanência no território. “Eu gosto de fazer artesanato aqui na aldeia, eu amo na verdade… vou para o mato atrás de tucumã, acho e coloco no sol dois dias o caroço da fruta…”, relata, descrevendo uma rotina de convívio íntimo com a floresta.
Essa mesma lógica de “acessar a floresta para viver” foi transposta para a coleta de sementes com a coleta de sementes. O que começou de forma tímida logo se tornou um pilar estruturante para sua família.
“Nós conseguimos uma quantia legal, guardamos e pensamos emfazer uma casa e hoje posso dizer que, fizemos essa casa, onde temos uma cozinha e um quarto com colchões, que é onde recebemos as pessoas”, conta Marisa com um sorriso de satisfação.
O impacto econômico narrado por ela transborda para o coletivo da aldeia, onde a bioeconomia se materializa em dignidade e bens que facilitam a vida no território. “Teve parente que comprou freezer, geladeira, cama, colchão… aumentou a parte da casa”, completa.
Essa circulação de riqueza reflete um ecossistema de trabalho que vai muito além do pagamento por um produto. Segundo Ive Cabral, diretora financeira da Ecoporé, o valor representa o reconhecimento de uma cadeia viva:
“Esse recurso não é abstrato: ele tem rosto, território e história. Para que ele circule com responsabilidade, existe uma logística complexa que envolve desde a formação de coletores e o planejamento até a rastreabilidade e a transparência financeira. É um sistema de governança que sustenta a rede”, destaca ela.
A eficácia da RESEBA reside na integração entre a técnica científica e o saber ancestral. Os coletores não apenas recolhem sementes; eles monitoram os ciclos das árvores e identificam as melhores matrizes em meio à mata.
Para Aline Smychniuk, gerente de sementes na Ecoporé, esse conhecimento territorial é o que qualifica as decisões técnicas, reduzindo riscos ambientais e garantindo a rastreabilidade dos projetos. Essa sinergia permitiu que, em 2025, fossem preparadas mais de 47 toneladas de “muvucas”: misturas planejadas de 135 espécies diferentes, adaptadas às condições específicas de cada área degradada.

Nesse processo, a Ecoporé atua como o “fio que costura” o sistema. Ive Cabral destaca que a instituição busca o ponto de equilíbrio entre as demandas de mercado e as realidades do campo:
“A Ecoporé organiza e dá método ao processo, garantindo que a bioeconomia sirva ao território, e não o contrário. Restaurar, nesse contexto, é afirmar que a floresta tem gente e que o território tem valor” explica a diretora financeira.
Protagonismo feminino e governança coletiva
A presença das mulheres foi um dos marcos do último ano, com elas recebendo mais de R$ 1,2 milhão pela atividade. Elas assumiram a linha de frente na organização dos grupos e na gestão da renda, assegurando que a coleta respeitasse as regras de proteção da floresta.
Além do ganho individual, a estrutura coletiva foi impulsionada por meio de cooperativas e associações e assim garante que o recurso permaneça e circule dentro dos próprios territórios, ampliando a autonomia das comunidades envolvidas.
A coleta de sementes apresenta-se como a alternativa viável ao desmatamento. Rebeca Suruí, coletora na Aldeia Lapetanha (TI Sete de Setembro), destaca que a atividade promove a consciência de que é possível gerar receita mantendo a floresta em pé.
“Na coleta de sementes, nós coletamos e ganhamos sem desmatar. Reflorestar é necessário para que nunca acabe”, a jovem destaca.

Mais do que um serviço ambiental, a RESEBA promove um diálogo intergeracional, onde jovens e anciãos compartilham localizações de matrizes e conhecimentos sagrados. É um movimento que reafirma a identidade dos povos da floresta e garante que a restauração ecológica seja, acima de tudo, um caminho para um futuro sustentável e próspero
Para a gerente de sementes, Aline, os resultados de 2025 mostram que a coleta de sementes vai além do fornecimento de insumos. “A coleta se consolida como um serviço ambiental fundamental para a restauração ecológica. Ela gera renda, fortalece os territórios e garante diversidade e rastreabilidade para os projetos”, afirma.

Para além dos indicadores econômicos e ambientais, o sucesso da RESEBA se reflete na satisfação de quem vê a vida se transformar em harmonia com a mata. Marisa Oro Nao, cujo trabalho na Aldeia Santo André simboliza essa nova era de autonomia, resume o sentimento que hoje percorre as comunidades da Terra Indígena Pacaás Novas:
“A gente ficou muito feliz com esse projeto de coleta de sementes, muito feliz mesmo.”
Essa felicidade mencionada por Marisa é o resultado de uma bioeconomia que respeita o tempo das árvores e a dignidade das pessoas. Ao transformar a coleta em uma ferramenta de permanência e prosperidade, a rede assegura que a restauração da Amazônia seja um processo feito por mãos que conhecem, amam e protegem o território.
O balanço de 2025 confirma que, quando a ciência e o saber ancestral caminham juntos, a semente deixa de ser apenas um insumo técnico para se tornar um símbolo de esperança, identidade e um futuro próspero para as próximas gerações, e também testemunha a manutenção da vasta vida da Amazônia.

